domingo, 7 de setembro de 2014

Mia Couto: 'O grande crime do racismo é que anula, em nome da raça, o indivíduo'

Um dos mais premiados autores da língua portuguesa, escritor moçambicano fala sobre literatura e sociedade, defendendo que a sociedade precisa ir além dos estereótipos raciais para ser capaz de respeitar cada ser humano

por Letícia Duarte / ZH


Autor passou por Porto Alegre nesta semana, para aula magna na UFRGS, em uma homenagem do Fronteiras do Pensamento aos 80 anos da universidade  Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Em voz baixa, o escritor moçambicano Mia Couto grita. O tom sereno de um dos mais premiados autores da língua portuguesa contrasta com a intensidade de seu discurso, que critica desde a onda do politicamente correto até a ilusão salvacionista em relação à África.

Em passagem pela Capital para uma aula magna na UFRGS, o escritor conversou com o PrOA. Na entrevista, o vencedor de prestigiados prêmios como o Neustadt e o Camões, conhecido pela arte de esculpir palavras, explica como faz de suas histórias um espaço de resistência — e convoca a sociedade a ir além do estreito estereótipo de raça para ser capaz de respeitar cada indivíduo.

Leia a entrevista:


O senhor vem de um dos 10 países mais pobres do mundo, e essa temática dos desvalidos é marcante em sua obra. Ao mesmo tempo, a esperança também é recorrente. Mesmo em Terra Sonâmbula, o seu livro que retrata o contexto da guerra civil em Moçambique, isso aparece. Na obra, o senhor escreve que o que faz andar a estrada é o sonho. Como cultivar a esperança em meio à aspereza da realidade?

De uma forma coletiva temos dificuldade em encontrar um caminho. No Brasil, no Moçambique, no mundo, nós nos sentimos um pouco perdidos, porque as forças que hoje comandam o mundo são pouco visíveis, não têm um rosto concreto. Como operar a mudança sem entender é muito complicado. Mas a resposta começa a partir de cada um. Não podemos abdicar desse outro modo de viver em que os outros são importantes, e é preciso perceber que esse sentido coletivo, essa negação do mundo sem lugar, de um mundo sem história, tem de ser feita em cada um de nós. Não só contar e receber histórias, mas vivermos uma história. E essa história tem que ser produzida por nós, não pode ser consumida. Não pode ser algo como a gente vai ao cinema, lê um livro, e assimilamos as histórias dos outros, que os outros fazem para nós. Temos de ser produtores de histórias. Assim conservamos o papel de sujeitos.

O senhor critica a visão arrogante do Ocidente, que imagina ter a receita para salvar o continente africano, sem considerar toda a complexidade cultural. Qual o primeiro passo para que os ocidentais possam ter uma visão mais realista do continente africano?

É preciso dizer que essa arrogância não é só da cultura ocidental. Todas as culturas que se querem hegemônicas têm a mesma arrogância. Mas, uma vez que essa cultura ocidental se tornou tão hegemônica, não se pode pedir a essa outra cultura que tenha atenção. É preciso impor a partir de dentro. São os africanos que têm que contar a sua história, e ter a sua própria voz, como a voz que importa e que é respeitada. Em lugar de pedir aos outros, a África tem que fazer isso a partir de dentro. Isso já começou. Não se pode esquecer que um dos únicos políticos do mundo que devolveu esperança ao mundo e resgatou a nobreza de fazer política foi um africano, Nelson Mandela. É um grande orgulho para a África ter esse caso singular no mundo, de alguém que fez política para servir, no sentido de sua abdicação pessoal.

O racismo é uma realidade no Brasil, e tem aparecido especialmente nos estádios de futebol, com casos de torcedores jogando banana para um árbitro negro e gritando "macaco" para jogadores negros. Já quando eu morava em Moçambique, tinha a sensação de que o branco era visto como alguém rico e mais estudado, que deveria dar dinheiro aos africanos. Como fugir dessa armadilha da "raça"?


Há várias maneiras. Um componente do racismo é que ele olha a raça para não ver a pessoa. É preciso fazer valer as histórias de cada um, acima da identidade racial. Não é a raça que produz o racismo, é o racismo que produz a raça. E às vezes a resposta que damos ao preconceito racial é fundada na raça, como, por exemplo, as políticas sociais afirmativas, de cotas. Não sou contra, mas além disso tem que haver a afirmação da individualidade. Porque, no fundo, o grande crime do racismo é que anula, em nome da raça, o indivíduo.

O senhor também critica o politicamente correto, que nos coloca a reboque de preocupações cosméticas, como se as palavras por si só fossem mudar a realidade. Na sua visão esse é um recurso hipócrita?


Sem dúvida, sou muito contra isso. Em alguns casos, obviamente a palavra também está mal. Mas, no geral, essa ideia do politicamente correto, de pensar que a palavra vai alterar o conceito e o preconceito é uma coisa importada, que vem de um mundo anglo-saxônico, com uma postura religiosa, fundada no protestantismo. Lembro a primeira vez que eu visitei os Estados Unidos, e um colega meu, escritor como eu, de raça negra, fez uma palestra. E ele fez uma série de gafes, sem saber, porque usou termos que não eram "corretos" ao designar sua própria raça. E a seguir nos entregaram uma espécie de pequeno dicionário, com uma pequena lista, com o que se devia dizer. Eu recordo bem que já não se poderia se dizer "cego". Dizia-se "visually challenged", o que é uma coisa extraordinária. Eu acho que nunca conseguiria dizer, mesmo sendo escritor (risos).

O senhor se define como uma criatura de fronteira — que é biólogo e escritor, tem origem europeia mas é africano, trabalha com a ciência e a arte. Num mundo tão intolerante como o nosso, essa visitação a diferentes realidades é cada vez mais rara. Por que nossa sociedade teme tanto ultrapassar suas fronteiras?


Essas sociedades são fundadas no medo. Temos hoje uma forma de governo que é administrar uma espécie de caos produzido pelo próprio sistema. Isso envolve sempre um aparato policial, policiamento das ideias, de anulação da criatividade, tudo feito em nome do medo, de uma ameaça que não sabemos bem o que é. Então é preciso essa aceitação de que esse outro está dentro de nós. Aqui no Brasil é uma coisa muito notória: 90% dos brasileiros nem sabem bem como se combinaram histórias, continentes, raças, dentro de si mesmos. E essa mestiçagem é o lugar certo: a aceitação profunda de que o outro existe dentro de nós. Em vez de a África ser procurada em África, provavelmente os brasileiros encontram a África fazendo essa viagem interior, em sua própria história.

Em seus textos, o senhor reafirma que a língua portuguesa é um espaço de resistência. E que na periferia a palavra precisa lutar para não ser silêncio. Em que medida escrever é uma forma de militância?


Escrever em qualquer língua é sempre uma forma de militância. Escrever no sentido de fazer literatura, porque hoje há muito livro que se edita que não parece que seja exatamente literatura. E a militância existe em toda língua porque o que o escritor faz é dizer assim: eu produzo pensamento, eu produzo arte, num universo em que não se espera que as pessoas produzam desta maneira, como afirmação de sua própria interioridade. Espera-se que se consuma. E fazer isso em português, num mundo em que a língua inglesa é a língua global, é uma afirmação de diversidade quase subversiva.

Seu próximo romance será sobre um imperador que resistiu à colônia... tem previsão de publicação?


Está em andamento. Mas sempre que me proponho a escrever um romance, sou atropelado pela poesia (risos). Em vez de escrever esse livro, começam-me a nascer versos. É um momento que eu quase odeio poesia... não queria. E já percebi que meu processo de escrita é assim. É como se a poesia me ajudasse a entender o que eu quero, o que é importante. No fundo, acho que sou um poeta que está tendo a ousadia de escrever em prosa. Mesmo quando escrevo em prosa estou fazendo poesia. E essa é a briga minha em caminhar pelo que seria pelo romance histórico, por via de uma aproximação poética.

Esse livro de poesias está nascendo?


Já acabou, está pronto. Chama-se Vagas e Lumes. Será o quarto livro de poesias que eu tenho, e no Brasil devem juntar todos em um volume único. Porque é uma coisa trágica que está a acontecer, já não se publica poesia. Só publica poesia quem tem um certo nome e portanto assegura-se quem venda. Mas um jovem poeta hoje está praticamente liquidado. É uma coisa terrível. Um grave sintoma. Estamos abdicando de uma forma de nós. Porque a poesia não é um gênero literário, a poesia é um saber, um olhar. O Vagas e Lumes deve sair em outubro em Moçambique e em Portugal, e no Brasil ainda não tem sei.

E o romance, tem previsão de publicação?


Até o início do próximo ano devo acabar. A dificuldade ali é os personagens me aceitarem, gostarem de mim. Porque o segredo é esse, criar uma intimidade com aquela gente, que de partida parece que nasceu de mim, mas eles terem vida própria, autonomia, para me chamarem. Estou esperando que eles me chamem.

Seu processo de escrita é sempre assim, de se sentir convocado pelas histórias?


Só houve um livro em que o processo foi outro, e doloroso. Normalmente eu não sofro, não sou masoquista (risos). Mas Terra Sonâmbula foi um processo diferente, sofrido, porque eu escrevi durante a guerra. E a ideia que eu tinha era que a guerra não terminaria nunca. Pensava que só depois de acabar a guerra faria um livro sobre a guerra, mas o livro começou-me a nascer. E era doloroso mesmo, porque à noite era visitado não por personagens, mas por fantasmas quase, gente que morreu, amigos meus que desapareceram na guerra... e eu ia para o computador e, depois de duas horas, estava cansado, queria voltar à cama. Deitava-me cinco minutos e estava a ser convocado outra vez. Foi um processo doloroso mesmo, não estou romantizando. Percebi que não estava só a escrever, estava lutando contra aquela asfixia que a guerra nos trazia.

E isso vinha como sonhos?


Eram como sonhos. A partir dessas pessoas que eu conheci, dessas vozes. Eu era jornalista àquela altura. Lembro-me que um dos meus colegas, que era chefe da redação do jornal e era uma pessoa mais doce, cheia de esperança, anunciou que ia fazer uma viagem para um ritual de família. Eu insisti tanto que ele não fosse, porque a guerra estava ali na estrada... e ele foi morto. Ele, a mulher e os filhos foram queimados dentro do carro. Então essa relação com essa memória, com essa perda, era algo que me pedia uma história. Eu não sabia lidar com aquela ausência.

Isso me lembra uma frase do livro Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra: "Morto amado nunca para de morrer"...

É. Mas ao mesmo tempo a África dá-te um conforto, que te ajuda a resolver esse luto. Que é a uma convicção de que os mortos estão aqui, estão vivos, e não só estão vivos como comandam a nossa vida também. Acho que eu interiorizei mesmo isso. Meu pai morreu no ano passado, e foi a primeira morte de alguém do meu sangue, e eu fiz esse teste em mim. Nunca pensei que pudesse enfrentar essa dor como alguma coisa que eu atravessei sem a necessidade de ter que ele findou... ele está dentro de mim, eu sou ele. Não é só um pequeno conforto, uma pequena mentira, acho que é uma verdade profunda.

A sua escrita cheia de invenções, que mescla registros da fala popular de Moçambique, onde se falam 25 línguas, e também tem influência de escritores brasileiros, é muito celebrada. Como o senhor vê essa questão da linguagem?

Isso tem de ser visto do ponto de vista de que Moçambique percebia que o português de Portugal servia, mas não bastava. Nós precisávamos introduzir nesse português uma marca de mudança, de identidade própria. É muito complicado fazer na língua do outro uma afirmação de nós próprios. O Brasil ajudou muito, não só do ponto de vista literário. Antes de nós, vocês já tinham percorrido um processo, de autonomia, de fazer uma espécie de identidade brasileira dentro da língua portuguesa. Quando africanos de língua portuguesa tomaram contato com a literatura brasileira foi uma catarse, principalmente Jorge Amado. Foi uma espécie de caução literária. Meus grandes mestres estão aqui.

Seria uma espécie de retroalimentação?

O Brasil é um grande produtor e exportador de língua portuguesa. E não só por causa da dimensão da população, mas também das novelas. Infelizmente, o livro não chega tanto, mas as novelas produzem grande influência. Eu recordo que fui uma vez a Tete (província na região central de Moçambique) — e a (companhia)Vale do Rio Doce tem uma grande presença por lá. Eu entrei no hotel e os empregados moçambicanos cumprimentavam-me com Namastê, Namastê! E eu não percebia o era aquilo. Vim a saber mais tarde que havia uma novela, Caminho das Índias, e aquilo alterou a maneira das pessoas se cumprimentarem, entre os próprios moçambicanos.

Em uma de suas palestras ao Fronteiras do Pensamento o senhor disse que "Não podemos confundir informação nova com informação recente. Muitas vezes as ideias que temos nos impedem de ter ideias novas. E nos tornamos aquilo que já fomos. Como evitar que isso aconteça, de virar refém das nossas ideias?


Acho que é pelo gosto, pela sedução que o pensamento tem. Eu fico espantado como amigos meus às vezes dizem que não querem ver um filme porque é um filme para pensar, como se pensar não fosse uma coisa prazerosa. Pensar é um grande prazer. E esse gosto está dentro de nós. O escritor também não pode ser algo que junto das novas gerações se faz por imposição. Aquela pergunta clássica: você já leu James Joyce ou Thomas Mann? E o fulano fica envergonhadíssimo, porque não leu. Não pode ser por aí. Tem que ser uma ideia de cultura que se faz pelo usufruto, pelo prazer, que o contato com esse mundo nos faz sonhar.

Entrando na sua outra área de trabalho, a biologia: o senhor afirma que muita gente tem uma visão distorcida do ambiente, como se as pessoas não fizessem parte dele. Qual dever ser, na sua avaliação, o foco da discussão ambiental?

É preciso não cair nessa armadilha de pensar que o meio ambiente é algo que se possa isolar. O meio ambiente é tudo. Sou muito favorável a esta concessão africana, por exemplo, em Moçambique, nem palavra tem para designar separadamente o meio ambiente. Não existe uma palavra que diga natureza, meio ambiente.

Qual é a palavra usada?

Por exemplo, nas línguas do sul é Ntumbuluku. É uma palavra que quer dizer várias coisas. Em primeiro lugar, quer dizer o antigamente, a origem do mundo. E ao mesmo tempo quer dizer sociedade, cultura, natureza. Porque essa visão do mundo não separa essas esferas do conhecimento. Então a atitude não pode ser conservacionista, de proteger a espécie. Tem que ser mais do que isso. Se não mudarem as grandes políticas, a maneira de fazer economia, que é muito predadora, não vamos salvar o que nós pensamos ser o meio ambiente. Seria mais um entretenimento, e não uma luta radical.

O senhor também já disse que a pobreza é um conceito relativo: em algumas línguas de Moçambique, sequer existe a palavra pobre. Pobreza não seria só a falta de bens, mas a solidão. Como o senhor enxerga os discursos sobre a pobreza?


Essa lição que a África pode dar é uma lição relativa. O que se está a dizer não é que não haja pobreza. Mas a forma de medir a pobreza não é pela falta de dinheiro só, é pela falta da rede familiar. Portanto, quando se chama chisiwana, que é a forma para designar um pobre, quer dizer que a pessoa começa a ser pobre quando perdeu os laços de familiaridade, é uma espécie de desamparo, solidão. E essa é uma maneira de medir a pobreza que pode ser aplicada também em outros sítios. Somos pobres porque nossa vida foi empobrecida em todos os sentidos. O quanto este mundo de hoje nos oferece de coisas que nos encantam, que nos criam esperança e crença? Esse empobrecimento foi o que nos ensinaram, de só ver por um critério econômico e financeiro. Mas, desse ponto de vista, mesmo ricos hoje são pobres. Porque eles próprios têm medo, não têm tanta esperança assim, vivem em função de algo que é imediato, instantâneo.

No livro E se Obama fosse Africano, o senhor escreve que nunca no nosso mundo teve tanta comunicação e nunca foi tão dramática nossa solidão. Que nunca houve tanta estrada e nunca nos visitamos tão pouco. Esse paradoxo tem solução?


Eu acho que tem que ter. Eu tenho fé, porque eu tenho filhos, tenho netos, e eu reencontro essa aptência fundamental do menino de se alimentar de histórias. Essa pergunta que o menino faz quando adormece, que quer saber uma história, essa história não tem fim, só quando ele adormece... E parece-me que existe um limite... Estou dizendo isso, mas não sei se acredito no que estou a dizer. Acho que não há o limite para o mau gosto. Quando nós pensamos que a má qualidade da televisão ou de um órgão de informação chegou ao maus baixo, somos surpreendidos. Então essa invasão é muito forte. Acho que essa espécie de anulação da criatividade e do gosto de ser criativo... essa invasão hoje é total. Fica pouco espaço para quem quer fazer algo diferente. Mas eu creio que quem está se opondo a este mundo está muito centrado na luta política, só. E acho que é preciso lutar em outros campos. Acredito que essa mesma tentação de vivermos com Facebook, com redes sociais, cria uma espécie de contraponto. Essa comunicação não é feita só no vazamento do outro, acho que a gente se encontra também.

E o senhor usa as redes sociais?


Eu não uso, não. Mas não é pelo preconceito. Eu resisto um pouco quando eu vou lá e perguntam: "fulano de tal quer ser seu amigo". Isso é um grande desrespeito por aquilo que pode ser a amizade. Amizade é uma outra coisa. Acho que não é inocente o uso da palavra amigo. Em toda nossa vida, produzimos quantos amigos, 10? Contam-se os amigos mesmo, nunca são muitos. E não precisam ser. Acho que há ali alguma coisa que eu não quero entrar. Mas não sou contra, não faço guerra contra isso.

O senhor já se declarou como um apaixonado do Brasil. Qual a sua visão sobre o Brasil hoje?

Eu não sei se eu consigo ver o Brasil. Porque há tantos Brasis... tantas hipóteses de mudança. Mas o que me parece é que o Brasil é muito cativante. É um país que é fácil de ficar enamorado. E esse enamoramento é uma coisa que ajuda o Brasil, mas cria uma dificuldade posterior. Porque quem está enamorado não vê o outro, vê a construção que faz, não vê defeitos. E depois, estando aqui, a gente começa a perceber como é que algumas coisas que se tinha expectativa que funcionasse, não funcionam, como os serviços públicos em geral. O Brasil tem essa aparência de primeiro mundo, mas depois percebe-se que o modo de funcionar e a preparação que as pessoas têm para a função não é exatamente de primeiro mundo. Eu nem falo dos contrastes entre pobreza e riqueza, que é muito falado e muito chocante, mas falo do contraste entre a aparência que o Brasil tem e os outros mundos que vivem dentro do Brasil. Apesar disso, eu prefiro isso do que um país só de primeiro mundo. Acho que não conseguiria viver num país em que todo ele fosse de um único mundo.

sábado, 6 de setembro de 2014

Eu, ex-cotista, 'vagabunda'

  • Por Akina Kurita

    Negra, hoje Relações Públicas, a blogueira Gabriela Moura teve uma adolescência difícil como tantas outras jovens de periferias brasileiras. Mas decidiu que ingressar numa universidade pública não era uma audácia, como diziam, e sim um sonho possível. Durante a vida acadêmica, no entanto, teve que enfrentar a ira dos não-cotistas. “A prática não deixa muita dúvida: educação é para quem pode comprar”. Já graduada, Gabriela diz que não restam dúvidas sobre o sistema de cotas: “Ele não substitui a necessidade de repensarmos a educação de base, mas impede que a disparidade racial do país aumente”
  • Favela 247 – A adolescência de Gabriela Moura foi parecida com a de muitas jovens negras, moradoras de periferias das grandes cidades brasileiras. Filha de uma costureira que já havia sido babá e empregada doméstica, o sonho de entrar numa universidade pública chegava a ser considerado uma audácia. “O ensino superior não era um direito de todos. Nós, que estávamos às margens da cidade, geralmente acabávamos por servir os que estavam no topo”, relata, em artigo publicado no blog que ela própria alimenta, o Gabinoica, etc. Hoje, aos 27 anos, Gabriela conta como conseguiu deixar as probabilidades pra trás e não só ingressar na Universidade Estadual de Londrina (UEL), pelo sistema de cotas, como se formar em Relações Públicas e, aos 24 anos, assumir a gerência de uma empresa.

    O caminho não foi fácil: ao ingressar no ensino superior através de cota, teve que enfrentar a ira dos não-cotistas e ouvir que o sistema “é racismo inverso contra brancos” e que “cria vagabundos” – essa última, na opinião da autora, “possivelmente a acusação mais esdrúxula neste mar de chorume racista”. “Cotas funcionam, sim. E incomodam, também. Incomodam porque provam que vestibular não serve mais pra nada, e porque ‘mescla’ um ambiente que, até dez anos atrás, era homogêneo. Branco. As cotas provam que elite intelectual é um termo inventado para deprimir e assustar aqueles que não possuem grandes quantias de dinheiro para serem gastas em escolas que vendem mais imagem do que conhecimento”, opina Gabriela. “A prática não deixa muita dúvida: educação é para quem pode comprar”.

    O começo da vida universitária da atual profissional de Relações Públicas não foi fácil. Mas não só o mundo acadêmico como novas oportunidades de vida se descortinaram quando ela ingressou no projeto Afroatitude, que unia alunos cotistas de dez universidades públicas. “Entrei em contato com a cultura negra, o que me era inédito, usei o dinheiro da bolsa pra comprar o primeiro computador da minha vida, estudei a vulnerabilidade da população negra e isso serviu de estopim pra tudo o que eu sou hoje”. Para ela, não resta dúvida: “O sistema de cotas para negros é bem simples de entender, ele é feito para a inserção de pessoas negras na universidade. Ele não substitui a necessidade de repensarmos a educação de base, mas impede que a disparidade racial do país aumente”.

    Por *Gabriela Moura, para o Gabinoica

    Eu, ex-cotista, “vagabunda”

    Eu não vou conseguir ser linear, mas espero que entendam os pormenores desta história íntima. Eu morei 10 anos em Londrina, no norte do Paraná, em um bairro de periferia chamado Jardim Leonor e estudava em uma escola estadual. Na época não era assim muito comum ter sonhos além de chegar ao final do ensino médio, então a falta de credibilidade das pessoas em mim já começava ai. As pessoas, menos a minha mãe. Quando eu tinha 16 anos eu decidi mudar de período na escola, indo do matutino ao noturno, para que assim tivesse um tempo para trabalhar e pagar o cursinho pré-vestibular. E isso já era uma audácia muito grande: desejar ingressar na Universidade Estadual de Londrina. A minha mãe não deixou que eu seguisse com estes planos, dizia que seria pesado demais conciliar trabalho e escola, e me sobraria pouco ou quase nenhum tempo livre pra diversão e coisas de adolescente. Por isso eu comecei a tentar estudar em casa mesmo, só com os materiais da escola – internet era um luxo inimaginável. Na verdade, nem computador eu tinha, e não tinha vaga ideia de quando eu teria um. A minha mãe trabalhava como costureira autônoma.

    Tudo isso para explicar que: era impossível pagar cursinho, era impossível pagar escola particular e o que eu tinha era um punhado de livros e o sonho de ingressar no curso de Relações Públicas da UEL. Essa era uma situação risível no meio onde eu vivia. O ensino superior não era um direito de todos. Nós, que estávamos às margens da cidade, geralmente acabávamos por servir os que estavam no topo. Era muita audácia da minha parte.

    Para encurtar esta parte da história: Em fevereiro de 2005 eu fui a uma festa promovida pela rádio pop local, que divulgaria o resultado do vestibular ao vivo, e quando eles distribuíram o jornalzinho do resultado (patrocinado pelo maior colégio particular da cidade, risos), meu nome estava lá, e naturalmente minha mãe chorou quando recebeu a notícia por telefone, um celular que eu peguei emprestado de um amigo.

    Estaria tudo ok se não fosse um porém: eu era cotista. Isso aí é como se eu carregasse alguma placa em neon piscante dizendo que eu não pertencia àquele lugar. Desde o começo eu ouvi manifestações hostis de pessoas que diziam abertamente que eu não deveria estar ali, pelos seguintes motivos:

    – Elas estudaram muito, pagaram 2, 3, 4 anos do cursinho mais caro da cidade justamente para terem mais chance.

    – Um possível mau desempenho meu atrasaria a turma toda.

    – É racismo inverso contra brancos (sic).

    – Cria vagabundos.

    Eu queria explicar estes pontos de maneira ponderada e organizada, mas não dá. A explicação vai vir bagunçada, tal como a bola de ódio nutrida contra cotistas nas turmas de 2005 da Universidade Estadual de Londrina.

    Pra começar, vocês precisam entender que eu não acredito no sistema de vestibulares como seleção de pessoas inteligentes e aptas a esse grande portal de suposição de superioridade intelectual chamado Universidade. Pra mim, o ensino deveria ser universal. E para o vestibular nós nos matamos para compreender ou decorar coisas que às vezes fazemos questão de esquecer o mais rápido possível, porque temos (ou deveríamos ter) direito de escolher as áreas que gostamos mais. Meus conhecimentos em química evaporaram tão rápido quanto perfume ao sol. Mas em mim ficou a Geografia Política, que eu fazia questão de ser a melhor aluna da sala, História, Literatura e os idiomas. E era isso que eu queria continuar estudando. O vestibular é um funil desgraçado e cruel.

    As escolas moldam crianças e adolescentes para passarem em provas “difíceis”, abordando questões pouco compreensíveis e ignorando toda a realidade social, só para estampar a cara do aluno vencedor e fazer dele uma mídia espontânea, que trará mais alunos para a escola e, assim, mais dinheiro. Conhecimento pode ser adquirido, mas não deveria ser tão difícil. Desde mensalidades, até preços de livros, é tudo um grande obstáculo. Quem trabalha com educação sabe disso ainda melhor do que eu, por ter uma visão global e maior conhecimento sobre a influência econômica no sistema educacional. Mas a prática não deixa muita dúvida: educação é para quem pode comprar.

    Sobre o racismo inverso a gente finge que não ouviu, pro bem da nossa saúde mental. E se insistirem, uma aula explicando o massacre das populações negras deveria ser suficiente. Se não for, é porque o ouvinte é mau-caráter, mesmo. E também me surgia a dúvida: a pessoa estuda 4 anos em escola particular e culpa uma cotista de ter roubado a vaga? Não soa razoável. Mas dinheiro ainda importava.

    Ai vem a nova parte da minha novela.

    Sobre a vagabundagem cotista: possivelmente a acusação mais esdrúxula neste mar de chorume racista. O curso de Relações Públicas não é dos mais caros. Os livros saem por cerca de 40 reais. A exceção são os livros de Economia e Marketing que, às vezes, passam dos 100. Mas todo aquele volume de xérox começou a falir a conta bancária que eu já não tinha. E, em certos dias, eu precisava escolher entre pagar 3 reais de passagem de ônibus ou usar estes mesmos 3 reais para comprar comida. Dentro do ambiente acadêmico, porém, o desempenho era equivalente. Eu não sentia que era menos capaz do que meus colegas oriundos de escolas particulares.

    Então eu ingressei em um projeto chamado Afroatitude, que unia alunos cotistas de 10 universidades públicas:

    “O Programa Nacional Afroatitude propicia aos alunos negros bolsas para desenvolverem projetos com os temas: Cultura e População Negra/Discriminação Racial, Vulnerabilidade Social, Prevenção das DST/AIDS e Direitos Humanos. Na UEL, o relatório final dos bolsistas Afroatitude que participaram de projeto de iniciação científica (2005-2007) deu-se com a entrega de um artigo sob supervisão do orientador. Os trabalhos foram surpreendentes, considerando que se tratavam de alunos da primeira série, que descortinavam um mundo extremamente novo em relação ao seu cotidiano, quer como vivência em sala de aula, quer como participação em projetos.”

    Com este projeto eu entrei em contato com a cultura negra, o que me era inédito, usei o dinheiro da bolsa pra comprar o primeiro computador da minha vida, estudei a vulnerabilidade da população negra e isso serviu de estopim pra tudo o que eu sou hoje. Apoiados pela Secretaria dos Direitos Humanos do Governo Federal, nós tivemos a chance de estudar a influência e as carências das populações negras das regiões em que vivíamos, e pudemos finalmente ter a noção do tanto de trabalho que ainda havia a ser feito. Eu não sei se consigo ser objetiva neste ponto e explicar direito a importância deste projeto em minha vida. Digamos que minha intelectualidade ganhou na loteria acumulada. Muita riqueza de informação. Em paralelo a isso, eu queria entender por que alguns colegas insistiam que eu e meus demais amigos cotistas éramos inúteis e tão dispensáveis, e por que não deveríamos estar ali. Na época era algo que eu não conseguia nem começar a explicar, e me restava ficar calada em situações constrangedoras, como quando pessoas riram ao assistir “Quanto Vale? Ou é por quilo?”, chamando objetos de tortura de escravos de “enfeite pra cara”.

    Me deem um desconto, eu era uma piveta de 17 anos sem muito acesso à informação. Felizmente, 4 anos foram suficientes pra provocar uma tormenta em mim, que me deixou cada dia menos tolerante a provocações racistas.

    Eu me formei em 2008, sem ter a minha foto de criança exposta no painel da festa, como meus outros colegas, por eu não ter conseguido pagar a festa. Eu fui como convidada de uma amiga.

    Eu me formei odiando festas de formatura e me sentindo deslocada.

    Mas o que é importante dizer que cotas funcionam, sim. E incomodam, também. Incomodam porque provam que vestibular não serve mais pra nada, e porque “mescla” um ambiente que, até 10 anos atrás, era homogêneo. Branco. As cotas provam que elite intelectual é um termo inventado para deprimir e assustar aqueles que não possuem grandes quantias de dinheiro para serem gastas em escolas que vendem mais imagem do que conhecimento. Ou para manter estas pessoas longe da preocupação da escola pública, porque afinal, pra que se preocupar com a escola da filha da empregada se a tua cria pode estudar no palácio do centro?

    Como costureira, empregada e babá, a minha mãe passou a vida construindo sonhos comigo. O sistema de cotas me ajudou a realizar um deles, Mas esta é a visão individualista, e vocês precisam entender o impacto global disto. Sendo cotista, eu ingressei em um excelente curso de uma excelente instituição, recebi um tsunami de cultura negra que me empoderou de uma forma que eu nem imaginei que fosse possível. Já formada, eu passei a me preocupar em ser uma multiplicadora, levando pra frente o que eu aprendi com o Afroatitude, e faço questão de empoderar cada jovem negro que passa pela minha vida. Com o sistema de cotas eu enfrentei a sociedade mimada, acostumada a ser bem dividida entre os que nasceram pra servir e os que nasceram pra serem servidos, e eu trabalho até hoje contra segregação racial. E vou continuar trabalhando enquanto meu corpo e minha mente permitirem.

    Como profissional de Relações Públicas, aos 24 anos eu alcancei a posição de gerência da empresa onde trabalhei. Não me soa nada ruim.

    Eu voltei a estudar em 2010, desta vez escolhi aprender a ler, escrever e falar árabe coloquial e árabe clássico. Estudei cinema árabe, literatura árabe, filosofia árabe, história árabe.

    O sistema de cotas para negros é bem simples de entender, ele é feito para a inserção de pessoas negras na universidade. Ele não substitui a necessidade de repensarmos a educação de base, mas impede que a disparidade racial do país aumente. O sistema de cotas não é outra coisa, senão um sistema inclusivo. Também é leviano chama-lo de “esmola governamental”, porque uma das obrigações do governo é justamente zelar pelo bem estar de seus cidadãos, e os cotistas estão apenas utilizando um direito, que é o de estudar. Errado é achar que, porque estas pessoas não tiveram 1.500 reais por mês durante 15 anos, não merecem entrar pelos portões da frente do ensino superior. O sistema de cotas incomoda porque mostra que dinheiro pode comprar coisas, pode até comprar gente, mas não pode comprar humanidade.

    E, por falar em conhecimento, um sem-número de artigos já explicaram a real eficiência desta solução, então não é difícil a compreensão.

    Há também quem busque invalidar toda a experiência dos cotistas, afirmando que a única solução correta e eficiente seria a reforma total do ensino de base, apenas. Eu talvez preste atenção nisto no dia que todos os pais puderem educar seus filhos com as mesmas condições econômicas, e isso inclui os empregados de quem desqualifica os cotistas.

    *Gabriela Moura, 27 anos, é Relações Públicas e trabalha com Marketing Digital. É voluntária no Coletivo Feminista Não Me Kahlo. Morou na periferia de Londrina (PR) dos 10 aos 21 anos e, atualmente, mora em São Paulo. Lançou o blog Gabinóica, etc em 2008.
    Fonte: http://www.geledes.org.br/ex-cotista-diz-que-sistema-funciona-mas-incomoda/

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Conheça 4 canais no YouTube para aprender de tudo sem sair de casa

Com a proposta "faça você mesmo", canais ensinam carpintaria, culinária, informática e moda

ZH
Internautas podem aprender de tudo com canais "faça você mesmo"  Foto: Reprodução / YouTube

Você provavelmente já se deparou, na internet, com a sigla DIY. O termo é a abreviação da frase em inglês Do It Yourself, que em português significa Faça Você Mesmo. No YouTube são diversas as opções de canais que ensinam tutoriais e conteúdos das mais diversas áreas.

ZH listou 4 canais para quem gosta de aprender por si mesmo. Confira:


1) Ana Maria Brogui

Nesse canal, Caío Novaes, considerado um MacGyver culinário, ensina como fazer receitas famosas de restaurantes e grandes marcas.

2) Oficina de Casa
Esse canal é pra quem curte decorar e dar um trato na casa sem gastar com mão de obra. Com vídeos explicativos, ele ensina a tapar buracos na parede, fazer uma bancada, entre outros serviços caseiros.

3) KeepCalmDIY (Jessica)

O canal criado por Jessica Belcost é focado em tutoriais "Faça você mesmo" para o público feminino. Nos vídeos, a blogueira ensina a customizar roupas e acessórios.

4) Manual do Mundo

Esse é o canal pra quem curte ciência. Iberê Thenório ensina, por meio de vídeos rápidos e divertidos, experiências, mágicas, desafios e brincadeiras.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Fotógrafo 'agricultor' constrói e semeia suas produções

O curador Daniel Rangel, fala com o De Volta ‘Pra’ Casa da mostra “Agricultura da Imagem”, do fotógrafo Rodrigo Braga

Juliana Meneses / Cmais+

A natureza é o ateliê de Rodrigo Braga e suas fotos são o suporte das suas obras, revelando um repertório visual muito particular do artista. Daniel Rangel, curador da exposição, conversa com o De Volta ‘Pra’ Casa sobre o conceito que intitula a mostra e as técnicas usadas pelo fotógrafo.

“O fotógrafo agricultor é aquele que constrói as imagens que fotografa. Então ele não registra aquilo que está previamente concebido pela natureza ou pelo instante, ele cria, desenha e semeia as fotos que vai criar. Nenhumas das fotos da exposição foram tiradas nos locais, elas foram criadas por ele. Com toda uma relação da fotografia com o desenho, a pintura e a instalação, na qual a fotografia é um suporte a mais que entra dentro desses elementos”, revela Daniel Rangel. Ouça a entrevista completa!

http://culturafm.cmais.com.br/de-volta-pra-casa/exposicao-no-sesc-apresenta-o-fotografo-agricultor-que-constroi-e-semeia-suas-producoes#

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CINEMA: 'Até hoje a relação da cultura russa com Eisenstein é controversa' (Adílson Mendes)

Curador da mostra Eisenstein / Brasil / 2014, em cartaz no MIS até 7 de setembro, falou com exclusividade ao cmais+

Marilia Fredini e Ana Carolina Surita, do cmais+Arte & Cultura

Grande articulador no campo da política e das artes, Sergei Eisenstein (1898 -1948) construiu um legado sólido e importante para a história do cinema mundial, aliando investigação formal e estética à construção de um discurso de denúncia social, numa época em que a Rússia vivia sua revolução de 1917. Entre exibições de filmes, debates e lançamento de livro inédito do cineasta, a mostraEisenstein / Brasil / 2014 , em cartaz no Museu da Imagem e do Som até 7 de setembro, retrata as várias facetas do artista e propõe uma reflexão sobre a importância da memória audiovisual.

O cmais+, portal de conteúdo da TV Cultura, conversou com o curador da mostra, o professor e historiador Adílson Mendes, da Faculdade Belas Artes.

cmais+ | Como surgiu a ideia da mostra Eisenstein?

Adílson Mendes | Eisenstein / Brasil / 2014 surge da vontade de se contrapor à destruição em marcha da memória audiovisual no país. Com o desmonte da Cinemateca Brasileira, apesar do silêncio generalizado, toda a memória audiovisual do país foi afetada em profundidade e recuperar um dos grandes momentos da história do audiovisual (a obra de Eisenstein) é também uma forma de se contrapor ao silêncio, ao esquecimento produzido com a morte de uma instituição de cultura. Portanto, para mim que sou um historiador do cinema brasileiro, recuperar Eisenstein em um momento de regressão é a forma encontrada para lançar luz sobre o presente catastrófico dessa história.

Mas junto com esse gesto que procura marcar o momento presente da memória do audiovisual, a mostra também traz outras facetas pouco conhecidas do grande cineasta, como por exemplo seu trabalho com desenhos, ou sua relação com a música ou sua teoria recém-descoberta. Essas diferentes facetas constituem um todo que será destacado em uma série de conferências e de atos criativos.

Por fim, o surgimento da mostra está na publicação de um livro inédito do cineasta, Notas para uma história geral do cinema(Azougue Editorial). Esse livro é uma descoberta recente e acaba de ser publicado na França graças a François Albera. É graças a Albera que também publicaremos essa obra fundamental para se entender as concepções da história do cinema que orientam a teoria de Eisenstein. Nesse sentido, o livro é uma contribuição importante para o debate da história do cinema e pode servir de estímulo para pensarmos uma história “total” do cinema no Brasil.

cmais+ | Qual a importância de Eisenstein para o movimento construtivista russo e a formação da base cultural e política da União Soviética?

Adílson Mendes | Talvez seja mais produtivo perguntar a importância do Construtivismo russo para a formação de Eisenstein, pois apesar dele frequentar os construtivistas e conhecer o debate e as formulações teóricas do movimento ele não é uma figura central dessa vanguarda plástica. Eisenstein incorpora questões da vanguarda (autonomia da arte, relações com o mundo científico da técnica, arte e utopia, organização em grupos etc.) mas também de outros campos do saber (o teatro de Meyerhold, os discursos científicos sobre o corpo, Pavlov, Bekhterev entre outros).

Não é simples definir a relação de Eisenstein com a cultura russa, que em períodos específicos encontrou nele a expressão universal, mas frequentemente o viu como exótico demais. Até hoje a relação da cultura russa com Eisenstein é controversa.

cmais+ | O uso da montagem cinematográfica na construção do discurso foi muito importante no cinema de vanguarda europeu dos anos 20, principalmente entre os russos. A imagem perdeu força ao longo do século XX?

Adílson Mendes | De fato, a montagem como princípio artístico orientou a arte de exceção ao longo de todo o século XX e a potência da imagem para ter se transformado, mas eu não diria que ela perdeu a força. Quando tomamos um metrô em São Paulo – ou em qualquer outra cidade – vemos como a imagem ainda possui extrema potência para seduzir e conduzir gostos, formas de vida, visões de mundo. O advento do 3-D, por exemplo, uma tradição pictórica anterior ao próprio cinema já indica que a imagem não perdeu sua força, mas se transformou radicalmente.

A imagem digital mudou as formas de visualidade: ao invés de uma janela para um vista a ser contemplada, o que surge é uma imagem como passagem, como portal, uma interface ou parte de um processo sequencial.

Se considerarmos o retorno do 3D, como o faz o historiador Thomas Elsaesser, temos uma nova qualidade de imagem que visa menos a representação mimética e mais a localização espacial. Ou seja, a imagem digital, em especial o 3D, estaria reformulando a semântica da percepção, e o espaço estéreo se convertendo em espaço habitual. E nesse sentido, o cinema apenas aponta uma tendência que vemos em celulares, videogames, GPS e outras telinhas que já nos habituamos a ver em 3D.

O observador fixo da perspectiva renascentista parece ter se transformado e, em seu lugar, surgiu uma visão mais móvel, uma onipresença espacializada, se podemos dizer. Elsaesser chega a falar em imagem pós-pictórica.

Não deixa de ser significativo que essa transformação trazida pela imagem digital, com o 3D à frente, de alguma forma foi antevista por Eisenstein, que escreveu sobre a estereoscopia e sua tradição que foge da perspectiva renascentista.

cmais+ | No programa da mostra, você sugere uma influência de Eisenstein nas obras de Glauber Rocha e Leon Hirszman. Como o cinema brasileiro tratou essa influência russa na construção de sua estética a partir desses cineastas? Existe algum cineasta contemporâneo em que você observe essa influência também?

Adílson Mendes | É preciso dizer que Eisenstein é uma referência importante para toda a arte brasileira de exceção no século XX, de Limite, de Mário Peixoto, passando teatro de Oswald de Andrade (particularmente em O homem e o cavalo, onde o cineasta vira personagem), o Cinema Novo e até por uma música como Domingo no parque, de Gilberto Gil.

É muito significativo que Eisenstein tenha sido recuperado em momentos de transformação do campo artístico no Brasil, especialmente nas décadas de 1930 e 1960. Sem hesitar, podemos dizer que Eisenstein ocupa no Cinema Novo o mesmo lugar que Rossellini ocupa na Nouvelle Vague. Glauber Rocha reivindica ao longo de seu trabalho a conexão com o cineasta russo. Em carta ao crítico Paulo Emilio ele chega a assumir que todos os seus filmes se inspiraram em determinados filmes de Eisenstein. Mateus Araújo fez um alentado estudo para mostrar como Eisenstein é para Glauber o mestre maior.

O mesmo acontece com Leon Hirszman, que fez seu primeiro filme, Pedreira de São Diogo, como ilustração das teses do autor da noção de cinema intelectual. Um trabalho estilístico de história do cinema certamente comprovaria esse impacto em filmes os mais diversos. Porém, é sempre bom lembrar que a presença de Eisenstein no Cinema Novo é sempre encarada como uma incorporação, uma tradução de um conteúdo histórico que ganha força e se transforma.

Enfim, toda vez que a cultura brasileira se interessou em profundidade por Eisenstein houve um salto qualitativo. Naturalmente que essa mostra não tem pretensões de reformulações abrangentes, mas ao menos contribui para que Eisenstein comece a ser repensado num país que destrói sua memória audiovisual. Eis uma justaposição inusitada.

SAIBA +
MIS dedica sua programação ao cineasta soviético Sergei Eisenstein

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Religião, política e polêmica abrem a 31ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo

Artistas expressam com sensibilidade, temas discutidos mundialmente
por Thiago Carvalho / Cmais+

A 31ª edição da Bienal de Artes de São Paulo, que começa a partir do dia 7 de setembro e vai até o dia 9 de dezembro, abriu as portas na manhã desta segunda-feira para a imprensa e convidados, contando com a presença do curador geral da exposição Charles Esche, do presidente da Bienal, Luis Terepins, diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda edo diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron.

ÉDER OLIVEIRA

A edição deste ano, intitulada “Como (...) coisas que não existem”, dá espaço ao público para interagir individualmente ou coletivamente completando o que, neste contexto politizado, está em falta. Para os organizadores, a proposta da Bienal deste ano é analisar maneiras de gerar reflexão confrontando aquilo que não foi resolvido. Em contraponto ao título da exposição, “as coisas que não existem” estão muito bem representadas nas obras de diversos artistas, cujas obras exprimem os conflitos gerados pela desigualdade social, diferenças religiosas e posições políticas que moldam não só a sociedade mas a própria produção artística.

Antes mesmo de começar, um assunto polêmico já chamava a atenção dos organizadores da Bienal, que temiam um boicote por parte de alguns expositores árabes ao evento. Cerca de 40 artistas de origem árabe e alguns de seusapoiadores, não concordaram com o patrocínio do Estado de Israel e exigiram a retirada da identidade visual do consulado israelensedo catálogo da mostra, por contado recente conflito na Faixa de Gaza.

Já do lado de dentro do pavilhão, obras que contestam e confrontam a religião, como a do artista peruano Miguel A. Lopez ‘Dios e Maricas’, registra corpos andrógenos e relações eróticas diante de imagens religiosas representadas, ou ainda a obra do brasileiro Thiago Martins de Melo, “Martírio”, um cenário com caboclos do vodum – religião africana com adeptos de São Luís do Maranhão, terra natal do artista.

No âmbito político, a dupla de bolivianas María Galindo e Ester Argollo, pela segunda vez na Bienal e primeira com a obra “Mujeres Creando”, discutem a legalização do aborto, em defesa das mulheres latino-americanas, com uma obra que será construída durante a Bienal. No dia 6 de setembro, as artistas convidam as mulheres brasileiras a marchar pelo Parque do Ibirapuera, entrando em um tubo, representação do útero, e relatar seu aborto. Para Maria Galindo, a discussão sobre o aborto não é de propriedade dos presidentes, médicos e advogados, mas das próprias mulheres.

Outra artista que enfocou uma temática politica em sua obra foi a brasileira Ana Lira de Recife, com a inédita “Voto!”, uma série de cartazes de candidatos políticos da cidade de Recife, deteriorados pelo tempo e pela própria manifestação da população. O país tem passado por grandes transformações politicas, principalmente com a intervenção da população, e com esta obra Ana afirma que “as relações políticas estão desgastadas e nós, implicados a estes desgastes. E para construir coisas novas, a gente precisa intervir”.

A proposta desta edição Bienal acende os holofotes para alguns dos assuntos mais discutidos atualmente, como era de se esperar dada a própria história do evento, mas a partir de uma abordagem muito mais provocadora e polêmica, em que os organizadores propõem, a partir da interação do público, trazer “estas coisas que não existem” à vida, essas “coisas” que artistas e público já sabem que existem, mas vivem nas sombras.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Ameaçada de morte, gremista de ato racista pedirá desculpas a Aranha

Irmão de Patrícia Moreira da Silva conversou com ZH e relatou que a jovem, desesperada com a repercussão, foi embora temporariamente de Porto Alegre

por Mauricio Tonetto / ZH

Quatro horas depois de deixar a Arena na última quinta-feira, após a derrota do Grêmio para o Santos por 2 a 0 pela Copa do Brasil, a jovem Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, teve a real dimensão das consequências dos gritos de macaco desferidos por ela para o goleiro santista Aranha, flagrados pelo canal de TVESPN. Ainda na madrugada de sexta-feira, ela começou a receber ameaças de morte e estupro pelo Whatsapp e teve de se refugiar na casa de familiares fora de Porto Alegre.



Ainda na madrugada de sexta-feira, Patrícia começou a receber ameaças de morte e estupro pelo Whatsapp e teve de se refugiar na casa de familiares Foto: Reprodução

De acordo com um dos irmãos dela, que pediu a ZH para não ser identificado para evitar problemas profissionais e pessoais, a gremista pedirá desculpas ao goleiro ainda nessa semana em rede nacional. Ele recebeu ZH nesta segunda-feira em sua casa, na Região Metropolitana, e contou que Patrícia está "desesperada" com a repercussão. Na noite de sexta-feira, a casa da garota foi apedrejada por um vizinho:

– Ela errou e admite. Nós temos consciência disso, mas ela nos disse que estava no embalo do jogo, da Geral do Grêmio. No momento certo, ela virá a público para se desculpar com o Aranha. É um momento muito difícil para nós todos, que nunca nos envolvemos em problemas com a Justiça.

As hostilidades, que motivaram a gremista a excluir seus perfis nas redes sociais devido a um "linchamento" público, não ficaram restritas apenas a Patrícia. Uma das filhas do irmão dela, que é adolescente e colorada, não foi à escola nesta segunda-feira com medo de represálias dos colegas.

Acuados, os familiares temem uma pressão ainda maior após o julgamento da próxima quarta-feira, quando o Grêmio pode ser penalizado devido aos incidentes racistas e perder pontos ou mandos de campo em competições nacionais.

– Ela terá de se mudar, não tem mais condições de continuar no mesmo lugar (um bairro popular da zona norte de Porto Alegre). Queremos dizer ao Brasil que a Patrícia não é racista, ela agiu errado, mas tem muitos amigos negros, somos pessoas humildes, não merecemos todo esse linchamento que está ocorrendo – afirma o irmão dela.

A jovem deve se apresentar na 4ª DP para prestar esclarecimentos até o próximo sábado. A família da gremista contratou um advogado nesta segunda-feira, que ainda se reunirá com ela antes de uma aparição pública. Eles pretendem que ela não seja exonerada do trabalho.