sábado, 19 de abril de 2014

No Dia Nacional do Livro Infantil, escritores e ilustradores falam da importância de Monteiro Lobato para a sua trajetória

Menina do Nariz Arrebitado, Fábulas do Marquês de Rabicó, O Pó de Pirlimpimpim, Reinações de Narizinho, As Caçadas de Pedrinho, Emília no País da Gramática… Entre os privilegiados que tiveram uma infância entre livros, não há quem não conheça ao menos um desses títulos – todos do escritor Monteiro Lobato, um dos mais importantes no Brasil do século XX.
Se fosse possível tal longevidade e estivesse vivo, Lobato (1882-1948) faria aniversário nesta sexta-feira, 18 de abril. Em 2002, a data foi escolhida para marcar o Dia Nacional do Livro Infantil.
Para comemorar este dia, fiz duas perguntas para dez escritores e ilustradores. Qual foi a importância do Monteiro Lobato na sua trajetória? E qual foi o livro da sua infância?
Quando eu era criança, meus pais tinham uma coleção do Lobato com capa dura, da qual restou, ao menos comigo, apenas o Negrinha, livro que, no fim de 2012, foi alvo de grande polêmica (clique aqui para ler). Quando me perguntam sobre meu livro de infância, também tenho dificuldade em citar apenas um – vários me veem à mente. Mas, nesta manhã, quando fui finalizar este post, me lembrei com muita saudades de O Beco do Tiquinho, que ainda tenho(imagem abaixo), todo esfarrapado, tal qual o gato da história. O livro não tem mais capa e já tentei várias vezes descobrir o autor, mas nunca consegui. Se alguém souber, me avise!
A seguir, em ordem alfabética, as respostas dos escritores e ilustradores. Depois, me conte, qual é o livro da sua infância?
Aline Abreu, escritora e ilustradora
1.
Monteiro Lobato entrou na minha vida pela televisão. Entre 4 e 7 anos, eu era apaixonada pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo da televisão e fantasiava, como muitas meninas, que era a Emília. Tenho várias fotos com uma fantasia de Emília que minha mãe costurou pra mim. A literatura de Lobato foi entrar em minha vida sem a mediação da adaptação televisiva bem mais tarde. Eu já era adulta e me mudei para Pindamonhangaba, cidade que fica ao lado de Taubaté, terra de Lobato. Nessa época eu ensaiava meus primeiros passos como escritora e ilustradora e fiquei muito encantada com aquela figura mítica que tinha vivido ali no Vale do Paraíba.
2.
Foram dois: Caxumba!, de Vivian e Rose Ostrovsky, editado no Brasil pela Primor, e Lúcia Já-Vou-Indo, de Maria Heloísa Penteado, da Ática. Caxumba! foi meu primeiro livro, que tenho até hoje. Com certeza foi o livro que mais manipulei na infância porque amava – e ainda adoro – as ilustrações. Lúcia Já-Vou-Indo foi uma outra paixão. Já estava alfabetizada e peguei muitas vezes na biblioteca da escola. Amei a personagem e sua história, com a qual me identifiquei tanto que nunca pesou quando na minha família ganhei o apelido Lúcia Já-Vou-Indo. A ideia de que não era o fim do mundo fazer as coisas em outro ritmo se instalou em mim a ponto de hoje sentir que essa característica não me faz simplesmente alguém que está sempre atrasada mas traz também muitos benefícios.
Claudio Fragata, escritor
1.
Lobato foi fundamental em minha vida. Costumo dizer que foi um divisor de águas. Minha vida pode ser marcada como a.E. e d.E, ou seja, antes e depois de Emília. O personagem está tão introjetado em mim que não sei onde Emília acaba e eu começo. Com ela aprendi o valor da rebeldia e da inteligência. E, sobretudo, o do bom humor. Com Monteiro Lobato nasceu minha paixão pela literatura.
2.
Desde muito cedo vivi cercado de livros. A maioria deles era da Melhoramentos. Eu adorava aqueles livros! Entre eles, havia um chamado A Viagem de Dona Ratinha, que mexia muito com minha imaginação. Contava a história de uma ratinha que ia visitar a irmã doente. No meio do caminho, ela senta em um cogumelo para descansar, mas ele, subitamente, começa a crescer. Ela então abre o guarda-chuva e salta para o chão. Isso nos inspirou, a mim e a uma prima mais velha, a fazer o mesmo. Resolvemos saltar de guarda-chuva da janela do sobrado em que ela morava. Por pouco não nos estatelamos. Eu conto a história completa em um dos meus livros,Seis Tombos e um Pulinho.
Fabrício Carpinejar
1.
Monteiro Lobato foi o primeiro autor de coleção, de um livro atrás do outro, de série. Ele me ensinou a continuidade, a entender que livro não era órfão, tinha irmãos.
2.
Meu livro da infância foi Os Meninos da Rua Paulo, novela do escritor húngaro Ferenc Molná.
Ilan Brenman, escritor, nascido em Israel
1.
Fui um leitor tardio do Lobato, gostava demais da conta do Sítio na TV, tinha pavores com a Cuca e amava a rebelde Emília. A leitura veio mais tarde e se aprofundou na minha época de estudante, na qual estava começando a trilhar meu caminho na área de educação e literatura. O Lobato entrou definitivamente na minha vida com o nascimento das minhas filhas. Foram muitas noites entrando no sitio e não querendo sair mais.
2.
Zero Zero Alpiste, de Mirna Pinsky.
Ionit Zilberman, ilustradora, nascida em Israel
1.
Não sei muito como dizer isso, porque é como dizer para alguém que você não ama Fellini. Mas a verdade é que Monteiro Lobato não foi super marcante para mim. Assisti o Sítio na TV, adorava a Emília. Uma vez, fiz minha mãe comprar uma cestinha como a dela. Essas são minhas lembranças.
2.
Meu livro de infância foi A Árvore Generosa, do Shel Silverstein. Tinha uma edição em hebraico lá em Israel. Não tenho mais o exemplar, porque foram muitas mudanças…
Janaina Tokitaka, escritora e ilustradora
1.
Minha mãe tinha o costume de ler um livro do Monteiro Lobato a cada mês de férias, um capítulo por noite, quando eu era pequena. Assim, as férias de Pedrinho e Narizinho no Sítio do Pica-Pau Amarelo ficaram para sempre misturadas às minhas próprias férias na praia, em Ilhabela. Esses momentos criaram uma memória afetiva muito importante para minha formação como leitora e escritora: a leitura como lazer, momento de ócio, como férias.
2.
Escolher um livro só parece injusto com os outros, já que eu era uma criança que amava ler. Às vezes penso que nunca vou gostar de um livro com a intensidade com que gostava na infância. Talvez por isso, um livro especial tenha sido Matilda, de Roald Dahl, que fala justamente de uma menina e sua relação com a literatura. A paixão de Matilda pela leitura parece, a princípio, mais complicar a vida da menina do que qualquer outra coisa, mas no fundo é o que acaba salvando-a.
Marcelo Maluf
1.
O mais importante da obra do Lobato para mim foi perceber a possibilidade de criar um universo imaginário e mergulhar nele a ponto de, às vezes, acreditar seguramente que ele é real e outras, compreender que esse universo é fruto da imaginação criativa de um autor, pois o Lobato brinca com isso. Ter essa consciência me marcou muito. Quando escrevo para crianças tenho esse caminho em mente.
2.
O livro da minha infância foi uma antologia de contos do Andersen, que meu pai lia para mim.
Renato Moriconi
1.
Antes de começar a ler, já conhecia a obra do Monteiro Lobato pela série da TV escrita por Wilson Rocha e Benedito Ruy Barbosa. Guardo até hoje na memória um dos primeiros pesadelos que tive: a Cuca me perseguindo numa estrada sem ninguém pra me ajudar (risos). Acho que povoar sonhos e pesadelos é uma boa demonstração da importância da obra dele na minha formação.
2.
Bíblia. Esse livro habita minha mente desde criança. Mesmo não sendo religiosa praticante, minha mãe selecionava algumas histórias desse livro e as lia pro meu irmão e pra mim quando pequenos. Tenho um bom relato que demonstra sua importância na minha formação. Eu tinha uns 5 anos e um certo medo de fazer algo que desagradasse o deus das histórias que ouvia, então desenvolvi uma técnica pra deixar claro para aquele deus que eu gostava dele: de tempo em tempo eu mandava beijos para o céu. Assim não haveria dúvida para ele do meu carinho. Ainda faço isso de vez em quando. É sempre bom garantir (risos).
Socorro Acioli
1.
Monteiro Lobato teve uma ação determinante na minha vida em dois momentos. Na infância, os livros de Lobato eram quase os únicos infantis que chegavam a Fortaleza, nos anos 70 e 80. Li quase tudo e foi marcante para mim, como para toda minha geração. Anos mais tarde, ele reapareceu na minha vida e acabou sendo o tema do meu mestrado em Literatura Infantil. Da dissertação surgiram dois livros: Aula de Leitura com Monteiro Lobato, teórico, da Editora Biruta, e a Biografia da Emília, que será lançado em junho pela Editora Casa da Palavra.
2.
O livro da minha infância chamava-se O Amanhã É uma Criança, que ganhei de presente dos meus vizinhos. Não tenho mais o livro e nunca consegui descobrir o autor ou a editora. Ainda lembro algumas poesias, a textura da capa. Eram poemas sobre animais e insetos.
Tino Freitas
1.
Não fui um leitor do Monteiro Lobato na infância. Em casa, tinha a coleção dele – daquelas em volumes coloridos – que ficava mais enfeitando a estante que mexendo com minha cuca. Do Lobato, eu sabia pelo programa do Sítio do Pica-Pau Amarelo que passava na TV. E disso lembro muito bem. Não perdi um capítulo de O Minotauro. Lembro bem. E foi assim, pela TV, que as histórias de Lobato chegaram para mim. Seus livros, comecei a ler já como mediador de leitura do projeto Roedores de Livros. E fiquei completamente envolvido com suas narrativas, mesmo sendo eu uma criança mais velha! Ainda não li tudo, mas estou devorando aos pouquinhos.
2.
Na infância, fui um leitor voraz de gibi. Onde eu morava – uma cidade no interior da Bahia – não tinha livraria. Mas tinha uma banca de revista onde eu podia levar o que quisesse, fiado. Foi lá que encontrei o primeiro livro que marcou minha infância: Marinho, o Marinheiro, escrito por Joel Rufino dos Santos e ilustrado por Michele. Era um livro da Coleção Taba, que vinha acompanhado de um disquinho com a leitura dramática do texto e a música Gaivota, cantada por Gilberto Gil. Coincidentemente, hoje, trabalho com histórias e canções. Naqueles dias, numa cidade sem livrarias, ter um livro vendido na banca de revistas foi fundamental para me iniciar nesse universo tão fantástico da literatura infantil.

Ministério da Saúde amplia faixa etária da vacina contra HPV

A vacina irá proteger meninas de 9 a 13 anos contra quatro variáveis do vírus. A partir do próximo ano, começa a vacinação para o grupo de 11 a 13 anos e, em 2015, para as adolescentes de 9 a 11 anos 
O Ministério da Saúde está ampliando a faixa etária para a vacinação contra o vírus do papiloma humano (HPV), usada na prevenção de câncer de colo do útero. Já em 2014, meninas dos 11 aos 13 anos receberão as duas primeiras doses necessárias à imunização, a dose inicial e a segunda seis meses depois. A terceira dose deverá ser aplicada cinco anos após a primeira.

Com a adoção do esquema estendido, como é chamado, será possível ampliar a oferta da vacina, a partir de 2015, para as pré-adolescentes entre 9 e 11 anos de idade, sem custo adicional. Assim, quatro faixas etárias serão beneficiadas, possibilitando imunizar a população-alvo (9 a 13 anos). A modificação no esquema vacinal foi anunciada nesta quarta-feira (18) pelo secretário de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, durante cerimônia de 40 anos do Programa Nacional de Imunizações (PNI), em Brasília.

“O esquema vacinal estendido adotado tem duas grandes vantagens. A primeira é que possibilita alcançar a cobertura vacinal de forma rápida com a administração das duas doses. Outro beneficio é que a terceira dose, cinco anos depois, funciona como um reforço, prolongando o efeito protetor contra a doença.” O Ministério da Saúde está investindo R$ 360,7 milhões na aquisição de 12 milhões de doses.

A inclusão do imunobiológico ao calendário do Sistema Único de Saúde (SUS) foi anunciada em julho deste ano. Na época, a previsão era de administrar a vacina em pré-adolescentes de 10 e 11 anos, com dose inicial, a segunda um mês depois e terceira seis meses após a inicial. Entretanto, o Ministério da Saúde decidiu adotar o esquema estendido baseado em estudos recentes que comprovam a eficácia desta medida. Além disso, a estratégia segue recomendação da Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) e foi discutida com especialistas brasileiros que integram o Comitê Técnico Assessor do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Vale ressaltar que o esquema já é utilizado por países como Canadá, México, Colômbia, Chile e Suíça.

É a primeira vez que a população terá acesso gratuito a uma vacina que protege contra câncer. A meta é vacinar 80% do público-alvo, que atualmente soma 5,2 milhões de pessoas. O vírus HPV é responsável por 95% dos casos de câncer de colo do útero, apresentando a segunda maior taxa de incidência entre os cânceres que atingem as mulheres, atrás apenas do de mama.

A vacina, que estará disponível a partir de março de 2014 (1ª dose), é a quadrivalente, usada na prevenção contra quatro tipos de HPV (6, 11, 16 e 18). Dois deles (16 e 18) respondem por 70% dos casos de câncer. O imunobiológico para prevenção da doença é seguro e tem eficácia comprovada para proteger mulheres que ainda não iniciaram a vida sexual e, por isso, não tiveram nenhum contato com o vírus.

As três doses serão aplicadas nas pré-adolescentes com autorização dos pais ou responsáveis. A estratégia de imunização será mista, ocorrendo tanto nas unidades de saúde quanto nas escolas públicas e privadas. A incorporação da vacina complementa as demais ações preventivas do câncer de colo do útero, como a realização rotineira do exame preventivo (Papanicolau) e o uso de camisinha em todas as relações sexuais.

A inclusão da vacina no SUS foi possível graças ao acordo de parceria para o desenvolvimento produtivo (PDP), com transferência de tecnologia entre o laboratório internacional Merck Sharp & Dohme (MSD) e o Instituto Butantan, que passará a fabricar o produto no Brasil. A economia estimada na compra da vacina durante o período de transferência de tecnologia é de R$ 154 milhões. Além disso, a produção do imunobiológico contará com investimento de R$ 300 milhões para a construção de uma fábrica de alta tecnologia pelo Instituto Butantan, baseada em engenharia genética.

SOBRE O HPV – O HPV é capaz de infectar a pele ou as mucosas e possui mais de 100 tipos. Do total, pelo menos 13 têm potencial para causar câncer. Estimativa da Organização Mundial da Saúde aponta que 291 milhões de mulheres no mundo são portadoras da doença. No Brasil, a cada ano, 685 mil pessoas são infectadas por algum tipo do vírus.

Em relação ao câncer de colo do útero, estimativas indicam que 270 mil mulheres, no mundo, morrem devido à doença. No Brasil, 5.160 mulheres morreram, em 2011, em decorrência deste tipo de câncer. Para 2013, o Instituto Nacional do Câncer estima o surgimento de 17.540 novos casos.

O Ministério da Saúde orienta que mulheres na faixa etária dos 25 aos 64 anos façam o exame preventivo, o Papanicolau, anualmente. Em 2012, foram realizados 11 milhões de exames no SUS, o que representou investimento de R$ 72,6 milhões. Do total, 78% foram na faixa etária prioritária. No ano passado, o investimento no atendimento e expansão dos serviços para tratamento de câncer na rede pública de saúde foi de R$ 2,4 bilhões, 26% maior que em 2010.

Fonte: Ministério da Saúde

sexta-feira, 18 de abril de 2014

‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ virou fenômeno ao abordar tema das minorias

Longa supera rótulos ao discutir transições da adolescência


Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo
Mesmo após a acolhida que o filme teve no Festival de Berlim – venceu o prêmio da crítica na seção Panorama e o Teddy Bear, o Urso de Ouro gay –, o diretor Daniel Ribeiro e o ator Guilherme Lobo confessam que não esperavam pelo que ocorreu com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho em Guadalajara. O México é um país mais conservador (homofóbico?) que o Brasil. Em 29 anos de festival, foi só há três que Guadalajara abriu espaço no cinema para temas gays e afins.
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não apenas ganhou o prêmio do público, como Guilherme, que faz o garoto cego que sai do armário, virou celebridade. "Se fosse em São Paulo, teria entendido, porque, afinal, é onde a gente mora. Mas foi no México." No hotel, era perseguido por fãs que queriam tirar fotos, pediam autógrafos. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho estreia em salas de todo o Brasil. A consagração não deve ficar exclusiva lá fora. É um belo filme.
Dos prêmios, todo mundo já falou – na Berlinale, no México. Vamos falar de mercado. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho estreia em 140 salas de todo o Brasil. Pode ser pouco em relação às 1.300 salas com que Rio 2 estreou há três semanas e, depois, as 1.020 de Noé e agora as 1.070 de Capitão América 2. Mas é um recorde para a distribuidora Vitrine, de Sílvia Cruz, que nos últimos anos se especializou em mostrar o cinema de ponta produzido no País. A Vitrine tem lançado os filmes que compõem a Mostra Aurora, em Tiradentes. Lançou O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. No fim do ano, em entrevista ao Estado, Sílvia citou os números de O Som ao Redor. O filme não batera 100 mil espectadores, mas chegara perto. Podia ser pouco. Afinal, o filme de Kleber foi uma unanimidade de crítica. Mas os 96 mil (número exato) eram mais que todos os demais filmes da carteira da Vitrine haviam faturado.
Para o tamanho com que costuma trabalhar, a distribuidora aventura-se agora num lançamento grande – seu maior. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tem potencial para chegar a... Quantos mil espectadores? O importante é que você não precisa ser militante nem simpatizante gay para agitar a bandeira do filme de Daniel Ribeiro. Só tem de ser cinéfilo – de gostar de cinema, e de gente. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho retoma temas e personagens que o diretor Daniel Ribeiro já abordara em Eu Não Quero Voltar Sozinho. O filme anterior era curto, sobre um garoto gay e cego. Numa entrevista à TV Estadão, Ribeiro falou de suas dúvidas.
"Ao me decidir a retomar o Não Quero, eu não tinha certeza de nada, exceto de uma coisa. Não queria fazer uma sequência, porque não via muito interesse no que pudesse vir depois do happy end. Mas eu não queria só esticar a trama curta, repetindo a história das duas minorias. Queria que o filme tivesse uma identidade própria. Fiz, mas não estava seguro de ter acertado. E foi assim até a apresentação do filme em Berlim. Depois que vieram os aplausos, os abraços e cumprimentos, relaxei." Na cabeça de Ribeiro, o filme não era sobre um garoto cego e gay que assume sua sexualidade. Isso talvez tenha sido uma simplificação da imprensa, para explicar ao público o que é o filme.
"Para mim, sempre foi sobre um garoto cego que queria se libertar das amarras protetoras da família e voar sozinho. Esse desejo de liberdade é comum a todo adolescente. A fragilidade e a insegurança também. A escolha da sexualidade é um complicador a mais, assim como a deficiência visual, mas o que tenho percebido é que muita gente não se identifica com o Leo (personagem de Guilherme Lobo) porque ele é cego, ou gay, mas porque seu desejo de superar os limites é universal." No cartaz de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, há uma frase embaixo do título. ‘Nem todo amor nasce à primeira vista.’
É justamente uma das questões do filme – se o sujeito não vê, como Leo, como o amor pode ser à primeira vista? É um detalhe tão sutil que você pode nem reparar, mas quando Gabriel (Fábio Audi) entra na sala de aula, e na vida de Leo, a câmera está colada no ouvido do protagonista. No corajoso texto abaixo, Lucas Maia conta como a sexualidade do cego se manifesta pela voz, pelo contato, pelo cheiro, que são seus estimulantes sexuais, substituindo a visão. "No filme tem mais. A amiga – Giovana (Tess Amorim) – funciona como uma espécie de visão auxiliar de Leo. Ela diz que o garoto é um gato, e isso estimula a fantasia de Leo, mas o desejo só se manifesta mesmo na cena decisiva em que ele veste o edredom do colega."
Alguns críticos já reclamaram que o imaginário de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é branco, urbano e retrata uma classe média alta. O bullying é desmontado no momento em que aparece – espere pelo desfecho –, mas isso não é tão raro assim (leia abaixo). O que a equipe de Tatuagem dizia do filme de Hilton Lacerda é cristalizado aqui – há uma estética do afeto que impregna as ações e dá ao filme de Daniel Ribeiro seu formato peculiar. Não foi por acaso que jornalistas de todo o mundo, em Berlim, e o público de Guadalajara se deixaram envolver pela trama de Hoje Eu Quero.
Mais que sobre o prêmio em Berlim, o diretor gosta de falar sobre a participação brasileira na Berlinale de 2014. Havia quatro filmes brasileiros nas diversas seções do festival, incluindo o magnífico Praia do Futuro, de Karin Aïnouz, na competição (e o filme, criminosamente, não ganhou nada). Três deles, a começar pelo de Karin, abordavam temas gays e Ribeiro vê nisso um sintoma de que o mundo está mudando em relação à homossexualidade, em especial no cinema. A diversidade dá o tom dos filmes, e ela é muito boa, acredita o diretor, para desmistificar os personagens gays. A observação de Ribeiro não deixa de ser uma resposta às cobranças a seu filme, como se também só devesse haver ‘uma’ forma de abordagem do assunto. O melhor.