sexta-feira, 16 de maio de 2014

A japonesa Yayoy Kusama ilustra Aventuras de Alice no País das Maravilhas

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo


Clássicos da literatura sempre fascinaram grandes artistas plásticos. São inesquecíveis, por exemplo, os desenhos feitos por Carybé para os livros de Jorge Amado. Ou mesmo o traço perfeito de Poty no bico de pena que fez para Helena, de Machado de Assis. Nesse rastro, as livrarias acabam de receber outros dois trabalhos caprichados, que trazem a visão particular de artistas sensíveis para obras conhecidas: a japonesa Yayoy Kusama ilustrou Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Globo), enquanto o estilista Ronaldo Fraga criou delicados bordados para Mary Poppins (Cosac Naify), que também vem com nova tradução.


Yayoi Kusama para 'Alice no País das Maravilhas' - Divulgação

Aos 85 anos, Yayoy Kusama vive reclusa, mas sua "obsessão infinita" - cobrir o mundo com as bolinhas, disposta a não deixar espaço sem sua marca registrada - se encaixa no mundo amalucado criado por Lewis Carroll. "Eu, Kusama, sou a Alice no país das maravilhas moderno", já declarou ela que, desde criança, sofria de alucinações que obscureciam a visão com manchas. E, por viver forçosamente em um hospital para doentes mentais na década de 1970, Kusama desenvolveu uma particular perspectiva sobre o mundo, traduzido por ela como lunático, surreal - ou seja, em perfeita consonância com a sensação provocada pelas maravilhas do fantástico mundo de Carroll.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sony compra direitos de livro para fazer filme sobre Snowden

Produtora confirmou aquisição dos direitos de livro escrito pelo jornalista Glenn Greenwald, que revelou dados de Snowden

Por Bruno Capelas - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Será que em breve teremos um filme sobre a saga de Edward Snowden? É o que parece: nesta quarta-feira, 14, a Sony Pictures Entertainment confirmou a compra dos direitos de Sem Lugar Para Se Esconder (Editora Sextante), livro do jornalista inglês Glenn Greenwald sobre o caso. Greenwald, que participará da próxima FLIP, foi um dos responsáveis pela divulgação das informações secretas obtidas pelo informante Snowden através do jornal inglês The Guardian.

O livro, que começou a ser vendido nesta quarta-feira no País, é uma visão pessoal de Greenwald dos acontecimentos do último ano, que levaram à publicação das matérias sobre o escândalo de vigilância da agência de segurança do governo norte-americano e lhe deram o prêmio Pulitzer de jornalismo.

Michael G. Wilson e Barbara Broccoli, que produziram os mais recentes filmes do agente secreto James Bond, estarão por trás da versão cinematográfica de Sem Lugar Para Se Esconder. “Estamos muito felizes que Michael, Barbara e Glenn escolherão a Sony para trazer essa história incrivel para a telona, e acreditamos que a participação de Glenn fará com que este seja um grande filme”.

Vale lembrar que a Sony é a responsável por um dos grandes filmes recentes sobre tecnologia: A Rede Social, que conta a história da criação do Facebook, com direção de David Fincher. A empresa ainda detém os direitos sobre Steve Jobs, a biografia escrita por Walter Isaacson, ainda sem previsão para chegar aos cinemas.

Para Sem Lugar Para Se Esconder, ainda será preciso escolher uma equipe toda para fazer o filme, sendo que as previsões mais otimistas dão conta de que a produção deve chegar aos cinemas em 2016.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Pós-proletariado, a nova classe social das ruas

O precariado desconcerta a direita e a esquerda, diz Guy Standing, ex-diretor da OIT

por Márcia Pinheiro

Protesto em Madrid

Em Madrid e outras metrópoles, um novo protagonista surge das ruas - Rafa Rivas / AFP


Guy Standing é PhD pela Universidade de Cambridge e professor de Estudos do Desenvolvimento da Escola de Estudos Oriental e Africano da Universidade de Londres. O ex-diretor da Organização Internacional do Trabalho veio ao Brasil a convite da União Geral dos Trabalhadores e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp para falar sobre a nova classe produzida pelo neo-liberalismo, o pós-proletariado. Standing recorre a um neologismo, precariado (precariat em inglês) para sintetizar a dupla condição de proletários e precários dessa parcela da população. Com uma agenda de reivindicações surpreendente mesmo para governos progressistas, partidos de esquerda e sindicatos, ocupa as ruas e praças das metrópoles mundiais e se manifesta, no Brasil, nos movimentos espontâneos de rua desde junho. O autor do livro Precariado – A nova classe perigosa concedeu esta entrevista à CartaCapital:

CartaCapital: O que é o pós-proletariado?

Guy Standing: Pós-proletariado é a classe que está perdendo seus direitos culturais, civis, sociais, políticos e econômicos. São muitos milhões de pessoas ao redor do mundo sem uma âncora de estabilidade. Chamo-os também de precariado, uma combinação do adjetivo precário com o substantivo proletariado.

CC: Por que estas pessoas estão perdendo seus direitos?

GS: Parte se deve à globalização e parte às estratégias neoliberais. Uma quantidade enorme de cidadãos não obtém emprego na sua área de especialização e acaba trabalhando em funções nas quais eles não conseguem aplicar seu conhecimento. Desde que lancei o meu livro sobre o assunto, fui convidado a falar sobre o tema em mais de 200 lugares em 31 países. Isso porque milhões de pessoas começaram a sentir que pertencem a esse pós-proletariado. Para entendê-lo, é necessária uma abordagem marxista do fenômeno, mas não a do século XIX. Ele é fruto de uma estrutura de classes resultante da globalização. Essa estrutura gera uma plutocracia no topo da sociedade, com menos de 1% da população. Abaixo dela, estão os assalariados não integrantes da classe trabalhadora. São os privilegiados com boa renda, investidores do mercado acionário e donos de imóveis para alugar. Outro grupo que está emergindo é uma combinação de profissionais e técnicos. Essas pessoas são independentes, orientadas por um projeto. Elas não querem a segurança do trabalho, têm muito dinheiro. São parte do sistema. Abaixo, está o velho proletariado, com emprego estável e remunerado. Os partidos social-democratas, trabalhistas, os sindicatos eram orientados por essa classe, mas ela está diminuindo. Os sindicatos e os políticos progressistas têm de se reinventar, porque abaixo de tudo isso surgiu o pós-proletariado.

CC: Quais as características principais dessa nova classe?

GS: São três. A primeira é que seus integrantes têm empregos casuais. Mas essa é a parte menos importante. Sempre houve informalidade, precariedade. Mais relevante é esses cidadãos não terem identidade ocupacional, nem uma narrativa para dar às suas vidas e contar para os netos. Outra característica é precisarem fazer muitas coisas pelas quais não são pagas: preparar curriculum vitae, procurar emprego, passar por treinamento. Isso deixa os indivíduos inseguros. É também a primeira classe com nível de educação e qualificação acima do exigido pelo trabalho. A pessoa tem grau universitário, mas trabalha como garçom, por exemplo. Eles não têm acesso a benefícios além do salário, como pensões, seguro-saúde e licença-maternidade. Tampouco são assistidos pelo governo. Enquanto historicamente o proletariado lutava e conseguia mais direitos, os pós-proletários estão progressivamente perdendo direitos. Isso gera uma diminuta chance de mobilidade social.

CC: No Brasil, país com uma das menores taxas de desemprego do mundo, há pós-proletariado?

GS: O país tem baixo desemprego e programas sociais, como o Bolsa Família, desde o governo Lula. Mas, apesar da formalização e dos avanços, há milhões de pessoas não beneficiadas. Esse processo ocorre no mundo todo. A desigualdade no Brasil ainda é uma das maiores do mundo. O que está em curso é um processo de flexibilização do trabalho global.

CC: Qual a consequência política do crescimento desta nova classe?

GS: Muitos trabalhadores passam do proletariado para o pós-proletariado e são presas fáceis para partidos e governos fascistas e populistas, aproveitadores da insegurança e dos medos da população.

CC: O senhor vê governos populistas na América Latina?


GS: O populismo é um clássico na América Latina. Usa sempre o carisma, promete um Estado mais forte, paternalista. Mas sempre joga contra minorias - imigrantes, gays, mulheres, religiosos e principalmente com os imigrantes, que são nostálgicos, não têm um senso de lar e mantêm a cabeça baixa. Alguns Estados deliberadamente os perenizam na ilegalidade. Os populistas usam os ilegais como capital, porque são mão-de-obra barata. E os partidos políticos progressistas e os sindicatos ainda não entenderam o pós-proletariado, que não quer voltar a ser proletariado. A esquerda parece ter esquecido da necessidade uma nova transformação em direção à maior igualdade e liberdade. A estratégia deve ser construída observando as aspirações dessa classe emergente, que não quer nem pode tomar o poder nas fábricas. Há necessidade de uma nova forma de ação. Os sindicatos hoje são vistos como algo para proteger privilegiados.

CC: A necessidade de uma nova forma de ação explica as jornadas de junho de 2013 no Brasil?

GS: Sim. A mobilização contra o aumento das tarifas de ônibus no Brasil foi uma fagulha, em processo semelhante ao das lutas em Istambul, Londres e Estocolmo. Foram dias de fúria. Vou me encontrar com alguns líderes importantes europeus preocupados em entender o que está acontecendo. Milhões de pessoas tentam compreender seu papel. A próxima luta vai ser por representação. Os manifestantes se diziam totalmente apolíticos, mas isso está mudando. A política é a essência da representatividade. No entanto, deve ser uma nova política. Tem de incorporar a agenda do pós-proletariado. Outra agenda é a da redistribuição. Não a do velho projeto socialista. Quais são os bens mais almejados? A segurança é um deles e transcende a garantia de renda, tem a ver com cidadania. O segundo é o controle do tempo. O terceiro é a redistribuição de espaços públicos de qualidade como parques, museus, banheiros. Por fim, educação de boa qualidade para todos e conhecimento financeiro, para manusear melhor a renda e o crédito disponíveis.


terça-feira, 13 de maio de 2014

13 de maio, uma mentira cívica

Por Douglas Belchior

5% de nós ainda éramos escravos.

Em nossa maioria, já éramos explorados de bárbaras outras maneiras.

E o que viria, do dia seguinte em diante, está aí, 126 anos depois.

13 de Maio é dia de denúncia, de reflexão e de luta.

E para marcá-lo, reproduzo aqui texto garimpado pelo site da Geledes, em que recuperam o brilhante discurso do mestre Abdias do Nascimento, proferido há 26 anos atrás.

Axé para nossos ancestrais!

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Discurso proferido pelo Senador Abdias Nascimento por ocasião dos 110 anos da Abolição no Senado Federal.
De Geledes

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ. Pronuncia o seguinte discurso.) – Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, sob a proteção de Olorum, inicio este meu pronunciamento.

Na data de hoje, 110 anos passados, a sociedade brasileira livrava-se de um problema que se tornava mais agudo com a proximidade do século XX, ao mesmo tempo em que criava condições para o estabelecimento das maiores questões com que continuamos a nos defrontar às vésperas do Terceiro Milênio. Assim, a 13 de Maio de 1888, a Princesa Isabel, então regente do trono em função do afastamento de seu pai, D. Pedro II, assinava a lei que extinguia a escravidão no Brasil, pondo fim a quatro séculos de exploração oficial da mão-de-obra de africanos e afro-descendentes nesta Nação, mais que qualquer outra, por eles construída.

Durante muito tempo, a propaganda oficial fez desse evento histórico um de seus maiores argumentos em defesa da suposta tolerância dos portugueses e dos brasileiros brancos em relação aos negros, apresentando a Abolição da Escravatura como fruto da bondade e do humanitarismo de uma princesa. Como se a história se fizesse por desígnios individuais, e não pelas ambições coletivas dos detentores do poder ou pela força inexorável das necessidades e aspirações de um povo.

A tentativa de vender a abolição como produto da benevolência de uma princesa branca é parte de um quadro maior, que inclui outras fantasias, como a “colonização doce” – suave apelido do massacre perpetrado pelos portugueses na África e nas Américas – e o “lusotropicalismo”, expressão que encerra a contribuição lusitana à construção de uma “civilização” tropical supostamente aberta e tolerante. Talvez do tipo daquela por eles edificada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, quando a humilhação e a tortura foram amplamente usadas como formas de manter a dominação física e psicológica de europeus sobre africano

Na verdade, o processo que resultou na abolição da escravatura pouco tem a ver com as razões humanitárias – embora essas, é claro, também se fizessem presentes. O que de fato empurrou a Coroa imperial a libertar os escravos foram, em primeiro lugar, as forças econômicas subjacentes à Revolução Industrial, capitaneadas por uma Inglaterra ávida de mercados para os seus produtos manufaturados. Explicam-se desse modo as pressões exercidas pela Grã-Bretanha sobre o Governo brasileiro, especialmente no que tange à proibição do tráfico, que acabaria minando os próprios alicerces da instituição escravista. Outro fator fundamental foi o recrudescimento da resistência negra, traduzido no pipocar de revoltas sangrentas, com a queima de engenhos e a destruição de fazendas, que se multiplicaram nas últimas décadas do século XIX, aumentando o custo e impossibilitando a manutenção do sistema.

Foi assim que chegamos ao 13 de maio de 1888, quando negros de todo o País – pelo menos nas regiões atingidas pelo telégrafo – puderam comemorar com euforia a liberdade recém-adquirida, apenas para acordar no dia 14 com a enorme ressaca produzida por uma dúvida atroz: o que fazer com esse tipo de liberdade? Para muitos, a resposta seria permanecer nas mesmas fazendas, realizando o mesmo trabalho, agora sob piores condições: não sendo mais um investimento, e sem qualquer proteção na esfera das leis, o negro agora era livre para escolher a ponte sob a qual preferia morrer. Sem terras para cultivar e enfrentando no mercado de trabalho a competição dos imigrantes europeus, em geral subsidiados por seus países de origem e incentivados pelo Governo brasileiro, preocupado em branquear física e culturalmente a nossa população, os brasileiros descendentes de africanos entraram numa nova etapa de sua via crucis. De escravos passaram a favelados, meninos de rua, vítimas preferenciais da violência policial, discriminados nas esferas da justiça e do mercado de trabalho, invisibilizados nos meios de comunicação, negados nos seus valores, na sua religião e na sua cultura. Cidadãos de uma curiosa “democracia racial” em que ocupam, predominantemente, lugar de destaque em todas as estatísticas que mapeiam a miséria e a destituição.

O mito da “democracia racial”, que teve em Gilberto Freyre seu formulador mais sofisticado, constitui, com efeito, o principal sustentáculo teórico da supremacia eurocêntrica neste País. Interpretando fatos históricos de maneira conveniente aos seus propósitos, deturpando aqui, inventando acolá, sofismando sempre, os apóstolos da “democracia racial” conseguiram construir um sólido e atraente edifício ideológico que até hoje engana não somente parte dos dominados, mas também os dominadores. Estes, sob o martelar do slogan, por vezes acreditaram sinceramente na inexistência de racismo no Brasil. Podiam, assim, oprimir sem remorso ou sentimento de culpa. Esse mesmo mito, com denominações variadas, como “raza cósmica” ou “café con leche”, também contamina as relações de raça na maioria do países da chamada América Latina, resultando, invariavelmente, na hegemonia dos brancos – ou daqueles que assim se consideram e são considerados – sobre os negros e os índios. É assim no México, na Colômbia, na Venezuela, no Equador, no Peru e nos países da América Central e do Caribe. Disso não escapa sequer a Cuba socialista, que pude visitar mais uma vez poucas semanas atrás e onde, a despeito do grande esforço de nivelamento social realizado pela Revolução, hábitos, costumes e linguagem continuam impregnados do perverso eurocentrismo ibérico.

Um dos efeitos mais cruéis desse tipo de ideologia é confundir e atomizar o grupo oprimido, impedindo-o de se organizar para defender seus interesses. Assim, por exemplo, se denuncia a discriminação racial de que é vítima, o negro se vê enquadrado nas categorias de “complexado”, “ressentido” ou mesmo de “perturbado mental”. Algum tempo atrás, poderíamos acrescentar as de “subversivo” ou “agente do comunismo internacional”, estigmas que as instituições repressoras de nosso País tentaram imprimir em minha própria pele e que me obrigaram a viver no exterior por mais de uma década.

Terríveis na sua capacidade de ocultar o óbvio ostensivo, todos esses instrumentos de coerção e imobilização não foram suficientes para impedir que parcelas da população afro-brasileira se tenham organizado, nesses 110 anos desde a abolição, a fim de lutar, por todos os meios possíveis, pela justiça e pela igualdade neste País edificado por seus antepassados. Já tive ocasião de celebrar, aqui mesmo nesta Casa, o aniversário de fundação da maior dentre todas as organizações afro-brasileiras deste século, a Frente Negra Brasileira, que assinalou, ainda na década de trinta, a existência de um pensamento e de uma ação: negros comprometidos em derrubar as barreiras construídas com base na origem africana. Transformada em partido político e fechada com o golpe do Estado Novo, a Frente Negra, em seus acertos e equívocos, balizou o caminho a ser percorrido pelas futuras organizações afro-brasileiras.

Em meados da década dos quarenta, criei no Rio de Janeiro, com ajuda de outros militantes, o Teatro Experimental do Negro, organização que fundia arte, cultura e política na conscientização dos afro-brasileiros, e dos brasileiros em geral, para as questões do racismo e da discriminação, assim como para a valorização da cultura de origem africana. Apesar dos obstáculos que lhe foram interpostos, incluindo a clássica acusação de “racismo às avessas”, o Teatro Experimental do Negro marcou sua trajetória, pelo volume e qualidade de sua atuação, no meio artístico e cultural daquela década e do decênio seguinte, como também no cenário político, sendo diretamente responsável pela primeira proposta de legislação antidiscriminatória no Brasil, mais tarde neutralizada pela malfadada Lei Afonso Arinos.

Minha militância acabaria me rendendo um exílio, do final dos anos sessenta ao início da década de oitenta. Pude então travar contato em primeira mão com toda uma liderança negra, na África, nos Estados Unidos e na Europa, em luta contra o imperialismo, o colonialismo e o racismo. As idéias e ações dessa liderança, que incluía Amílcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto, Julius Nyerere, Jomo Kenyatta, Léopold Senghor, Wole Soyinka e Sam Nujomo, na África; Malcolm X, Martin Luther King, Amiri Baraka, Stokeley Carmichael e os Black Panthers, na América do Norte – para citar apenas alguns de seus mais destacados expoentes -, encontraram eco no Brasil, estimulando a antiga luta afro-brasileira, agora sob o rótulo de “Movimento Negro”.

Recuperando a tradição das antigas organizações, a exemplo da República dos Palmares, da Frente Negra e do Teatro Experimental do Negro, o Movimento Negro logo se espalhou pelo País, catalisando o idealismo de uma generosa juventude afro-descendente, com grande incidência dos escassos universitários que enfrentavam, na busca de se inserirem no mercado de trabalho, as cruéis contradições de nossa “democracia racial”.

O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – V. Exª me permite um aparte?

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Ouço V. Exª com muito prazer.

O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – Senador Abdias Nascimento, no dia 13 de maio gostaria de me solidarizar com V. Exª e com toda a raça da qual V. Exª faz parte, dizendo que a esta raça nós, brasileiros, devemos muito. Todos nós devemos estar conscientes de que deve haver cada vez mais igualdade e mais espaço para ela. Juntos haveremos de construir essa raça brasileira, que é a miscegenação de todas elas. Muito obrigado.

O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Muito obrigado a V. Exª.

Continuo, Sr. Presidente:

Apesar de todas as dificuldades e resistências, o Movimento encontrava também o apoio de alguns políticos importantes. Dentre eles se destaca Leonel Brizola, responsável, como Governador do Rio de Janeiro, pela mais séria e ousada experiência de enfrentamento do racismo até hoje empreendida no plano do Estado: a criação da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, da qual tive a honra de ser o primeiro titular.

Uma das reivindicações do Movimento Negro no plano das políticas públicas tem sido a adoção da chamada “ação afirmativa” – que eu prefiro designar como “ação compensatória” -, objeto, nos últimos tempos, de algumas propostas no âmbito do Legislativo, incluindo o Projeto de Lei do Senado nº 75, de 1997, de minha autoria, atualmente tramitando nesta Casa. Trata-se este, na verdade, de um assunto sobre o qual muito se fala – quase sempre contra – mas do qual, geralmente, pouco se conhece.

“Ação afirmativa” ou “ação compensatória”, é, pois, um instrumento, ou conjunto de instrumentos, utilizado para promover a igualdade de oportunidades no emprego, na educação, no acesso à moradia e no mundo dos negócios. Por meio deles, o Estado, a universidade e as empresas podem não apenas remediar a discriminação passada e presente, mas também prevenir a discriminação futura, num esforço para se chegar a uma sociedade inclusiva, aberta à participação igualitária de todos os cidadãos. Ao contrário do que costumavam afirmar seus adversários, a ação compensatória recompensa o mérito e garante que todos sejam incluídos e considerados com justiça ao se candidatarem a empregos, matrículas ou contratos, independentemente de raça ou de gênero. São seus propósitos específicos: 1) aumentar a participação de pessoas qualificadas, pertencentes a segmentos historicamente discriminados, em todos os níveis e áreas do mercado de trabalho, reforçando suas oportunidades de serem contratadas e promovidas; 2) ampliar as oportunidades educacionais dessas pessoas, particularmente no que se refere à educação superior, expandir seus horizontes e envolvê-las em áreas nas quais tradicionalmente não têm sido representadas; 3) garantir a empresas de propriedade de pessoas desses grupos oportunidades de estabelecer contratos com o governo, em âmbito federal, estadual ou municipal, dos quais de outro modo estariam excluídas.

A ação compensatória na área do emprego implica o recrutamento ativo de mulheres e membros de grupos historicamente discriminados, buscando-se candidatos além das redes convencionais de relacionamento, tradicionalmente dominadas por homens brancos. Ela estimula, por exemplo, o uso de anúncios públicos de emprego para identificar candidatos em lugares em que os empregadores geralmente não iriam procurá-los.

Na área educacional, as medidas de ação compensatória adotadas em outros países, e que se pretende sejam adotadas aqui, são muitas vezes acusadas de constituírem preferências por alunos não-qualificados. Na verdade, porém, também nessa área o objetivo é recompensar o mérito. Recentes estudos de escores obtidos em testes e de notas tiradas no curso secundário – os padrões tradicionais e presumivelmente “objetivos” para mensurar as qualificações de estudantes – têm posto em questão a precisão desses instrumentos em predizer o desempenho futuro de todos os alunos, particularmente de mulheres e de membros de grupos discriminados. Poucos especialistas sustentariam racionalmente que, por si sós, esses escores e médias sejam capazes de medir objetivamente a capacidade e o potencial de um indivíduo. Qual a experiência de vida do candidato? Que obstáculos ele teve de superar? Quais são suas ambições e esperanças? Menos tangíveis do que números, esses padrões são mais precisos em prever o futuro desempenho educacional do que a origem familiar, herança ou outros atributos do privilégio.

Além do falido argumento meritocrático, também se costuma brandir contra a ação compensatória – como aconteceu nesta própria Casa – a tese da inconstitucionalidade. Seria inconstitucional estabelecer qualquer espécie de “discriminação positiva” – outro sinônimo de ação afirmativa – porque isso feriria o princípio da igualdade de todos perante a lei. A primeira resposta a esse argumento vai contra o seu caráter eminentemente conservador. Como se não tivéssemos a possibilidade, o direito, o dever, eu diria, de lutar por mudanças nos dispositivos constitucionais que não nos interessam. Ou como se a igualdade fosse apenas um princípio abstrato, e não algo a ser implementado por meio de medidas concretas. A verdade, porém, é que existem diversos precedentes jurídicos que abrem as portas à implantação da ação compensatória em favor dos afro-descendentes no Brasil. A igualdade de homens e mulheres perante a lei não impede, por exemplo, que estas tenham direito de se aposentar com menor tempo de serviço, nem que disponham de uma reserva de vagas nas listas de candidatura dos partidos. Há também a proteção especial aos portadores de deficiência, a famosa Lei dos Dois Terços – que estipulava uma preferência para trabalhadores brasileiros no quadro funcional das empresas -, sem falar no imposto de renda progressivo e na inversão do ônus da prova nas ações movidas por empregados contra empregadores. Todos casos em que a igualdade formal dá lugar à promoção da igualdade.

Vale ressaltar, neste ponto, que pelo menos três convenções internacionais de que o Brasil é signatário – e que portanto têm força de lei – contemplam a adoção de medidas compensatórias. Uma delas é a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, da Organização das Nações Unidas, cujo art. 1º, item 4, diz o seguinte: “Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos (…) que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar(…) igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais (…).”

Teor semelhante tem o art. 2º da Convenção 111 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, concernente à discriminação em matéria de emprego e profissão, pelo qual cada signatário “compromete-se a formular e aplicar uma política nacional que tenha por fim promover (…) a igualdade de oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e profissão, com o objetivo de eliminar toda discriminação nessa matéria”. E também o art. IV da Convenção Relativa à Luta Contra a Discriminação no Campo do Ensino, da UNESCO: “Os Estados Partes (…) comprometem-se (…) a formular, desenvolver e aplicar uma política nacional que vise a promover (…) a igualdade de oportunidade e tratamento me matéria de ensino.”

Outra postura contrária vem dos que, dando como exemplo a experiência de países socialistas, à ação compensatória costumam contrapor as políticas públicas de combate à pobreza e aos problemas a ela associados – as chamadas políticas redistributivas. Esse argumento, em geral oriundo da Esquerda, é duplamente falacioso. Primeiro porque ninguém, em sã consciência, poderia vislumbrar no horizonte próximo uma revolução socialista no Brasil – condição indispensável à adoção de reformas radicais como aquelas que possibilitaram a alguns daqueles países não acabar com o racismo, mas reduzir a um nível mínimo as desigualdades raciais (o que é diferente) nas áreas do trabalho, da educação, da saúde e da moradia. A outra falácia desse argumento é deixar implícito que se trata de opções mutuamente excludentes – ou ação compensatória, ou políticas redistributivas, quando, de fato, necessita-se de ambas. Com certeza, os afro-brasileiros seriam, por sua inserção social, os grandes beneficiários de quaisquer ações governamentais voltadas à melhoria das condições de vida das grandes massas destituídas. E continuariam precisando de proteção contra a discriminação, bem como de mecanismos capazes de lhes assegurar a igualdade de oportunidades.

Em entrevista publicada semana passada pela revista Veja, em que se discute a situação dos negros neste País, o Presidente Fernando Henrique Cardoso disse não ser contrário ao sistema de quotas, forma mais incisiva de ação compensatória, que constitui a essência do meu projeto de lei. O Presidente foi além dessa declaração e afirmou literalmente: “Havendo duas pessoas em condições iguais para nomear para determinado cargo, sendo uma negra, eu nomearia a negra”. Como é curioso, para dizer o mínimo, observar correligionários do Presidente aqui no Senado manifestando idéias e atitudes absolutamente contrárias às de seu suposto líder e utilizando, para isso, todo um arsenal de argumentos ou intempestivos, ou equivocados, ou desinformados – pois não quero acreditar que sejam maliciosos.

Ao mesmo tempo, pesquisa realizada pelo prestigioso instituto de pesquisa Datafolha, e publicada à página 46 do livro Racismo Cordial, revela não apenas que praticamente metade dos brasileiros de todas as origens étnicas aprova a ação compensatória, mas que essa aprovação chega a 52% entre aqueles que admitiram ter preconceito em relação aos negros. Muito significativo em função da cortina de desconhecimento que cerca o tema, esse resultado indica que o País está mudando, e mais rapidamente do que se quer admitir. E esta Casa, cujos membros têm o dever de acompanhar e até mesmo antecipar as mudanças que o País quer e necessita, não pode ficar se ancorando em velhos chavões para manter um estado de coisas que a maioria da sociedade quer ver superado. Sabemos, eu e meus companheiros de luta, que é árdua a batalha que temos pela frente, no confronto com o reacionarismo, a ignorância e o atraso. Mas estamos dispostos a levar nossa luta a todos os foros, nacionais e internacionais, e a conduzi-la, como alguém já disse, “por todos os meios necessários”.

Assim, neste 13 de Maio, fazemo-nos presentes nesta tribuna, não para comemorar, mas para denunciar uma vez mais a mentira cívica que essa data representa, parte central de uma estratégia mais ampla, elaborada com a finalidade de manter os negros no lugar que eles dizem ser o nosso. A comunidade afro-brasileira, porém, já mostrou claramente que não mais aceita a condição que nos querem impingir. Mais uma prova disso foi dada na madrugada de hoje, quando o Instituto do Negro Padre Batista, juntamente com dezenas de outras organizações, realizou em São Paulo a segunda Marcha pela Democracia Racial, desfraldando a bandeira da igualdade de oportunidades para os afro-descendentes. Assim, ao mesmo tempo em que denuncia as injustiças de que é vítima, nossa comunidade apresenta reivindicações consistentes e viáveis para a solução dos seculares problemas que enfrenta. Reivindicações, como a ação compensatória, capazes de contribuir para que venhamos a concretizar, com o apoio de nossos aliados sinceros, a segunda e verdadeira abolição.

Sr. Presidente, pulei vários trechos para abreviar meu pronunciamento, solicito que a publicação seja feita na íntegra.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

Axé!

Fonte: Senado | Secretaria-Geral da Mesa – Secretaria de Taquigrafia e Secretaria de Ata | Secretaria de Informação e Documentação – Subsecretaria de Informações

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sobrinha-neta de Tarsila do Amaral diz que ‘Abaporu’ nasceu de autorretrato

Tarsilinha expõe sua tese no livro 'Abaporu: Uma Obra de Amor', que será lançado em breve

Edison Veiga - O Estado de S. Paulo

Um autorretrato ousado. Um presente cheio de paixão. Quase 90 anos após ter sido pintada, Abaporu, a tela brasileira mais valorizada da história, ganha uma nova interpretação. Deve sair nos próximos meses o livro Abaporu: Uma Obra de Amor, escrito por Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta e responsável pelos direitos da obra da pintora modernista. (Leia trecho aqui.)

O livro foi a maneira encontrada por Tarsilinha para tornar público o insight que a acompanha há alguns anos: que o quadro mais famoso de sua tia - e um dos mais importantes da arte brasileira - foi, na verdade, um autorretrato de Tarsila, possivelmente nua, em frente a um espelho, feito para impressionar sua grande paixão, na época, o escritor Oswald de Andrade.

Foi por sugestão de uma amiga que Tarsilinha aventou essa hipótese pela primeira vez. Em 2011, resolveu fazer um inusitado teste - para "tirar a prova" de tal versão. Ela lançou a possibilidade de que o quadro fosse a reprodução de uma imagem refletida num espelho, um espelho que estivesse levemente inclinado, criando a deformação que caracteriza a obra.

Aproveitando-se da semelhança física com a tia-avó ilustre, Tarsilinha posou para um espelho inclinado - de forma similar à foto que aparece nesta página. "Ou seja, procurei imitar a provável pose que a artista teria assumido quando pensava no quadro que faria, naquele longínquo dia de 1928", diz ela, em trecho do livro. "A mágica se completou: a imagem que vi no espelho lembrava de maneira impressionante a figura do Abaporu, como se de repente tivéssemos nos deslocado no tempo e no espaço e, por um encantamento, encontrássemos a resposta de um enigma, uma chave nova para compreender uma obra por si tão cheia de mistério."

Tarsilinha recorreu a fotos e memórias de família para comprovar ainda mais fortemente sua interpretação. De acordo com uma sobrinha da pintora, Helena do Amaral Galvão Bueno, na casa onde Tarsila vivia com Oswald em 1928 havia um enorme espelho inclinado, apenas encostado na parede, justamente no corredor anexo ao quarto-ateliê que ela dividia com o escritor.

"Outra semelhança entre a pintura e a pintora está no pé. Assim como o Abaporu, familiares acreditam que Tarsila também tinha o segundo pododáctilo maior do que o primeiro, o hálux", conta Tarsilinha. "Este detalhe anatômico teria sido percebido, na infância, por uma das sobrinhas-netas da pintora, Marília Estanislau do Amaral Powers - ela própria também dotada dessa característica, o que, por ser hereditária, só reforça a tese. Irmão de Tarsila, Milton Estanislau do Amaral, era outro da família que tinha os dedos dos pés assim."

Ciente da importância de Abaporu para a arte brasileira, bem como da potência das interpretações consagradas acerca do significado do quadro, Tarsilinha não pretende que essa sua conclusão se sobreponha ao sentido mais amplo e metafórico que a tela atingiu. "Com este livro, não quero mudar a brilhante ideia que Oswald de Andrade teve ao achar que o Abaporu era o homem plantado na terra. O importante é que fique também clara a inspiração da obra, a perspicácia de Tarsila do Amaral - sua capacidade de transformar uma cena do cotidiano, do acaso, no mais famoso quadro brasileiro de todos os tempos." Ou seja: ela lança um novo olhar à obra da tia-avó e reconhece que, para artistas geniais, a simplicidade do cotidiano é o bastante para impulsionar a criação.


A SAGA DE UM QUADRO
1928
Tarsila pinta o Abaporu e dá o quadro de presente de aniversário para Oswald de Andrade

1930
O casal se separa. Na divisão dos bens, Oswald leva O Enigma de Um Dia, de Giorgio de Chirico, e deixa o Abaporu

Anos 1960
Tarsila vende o quadro para o colecionador Pietro Maria Bardi. Um mês depois, Bardi repassa a obra para o colecionador Érico Stickel.

1984
Stickel vendeu a obra para Forbes, por US$ 250 mil - recorde na época para um quadro brasileiro

1995
Em leilão na casa Christie’s, em Nova York, o empresário argentino Eduardo Constantini paga US$ 1,5 milhão pelo quadro, o preço mais alto já pago por uma tela brasileira. Hoje, o quadro está no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires

domingo, 11 de maio de 2014

Obrigatoriedade de conteúdo nacional na tv paga faz surgir mais de 200 novas empresas no País

O momento é propício também para pequenos empreendedores do segmento

RENATO GHELFI, ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

A demanda por produções audiovisuais brasileiras aumentou nos últimos anos. A notícia é boa para as produtoras nacionais, principalmente para as que têm foco em conteúdo para televisão. A Lei 12.485, também conhecida como Lei da TV Paga, é um dos principais motivos do aquecimento desse mercado no País. Desde que foi sancionada, no final de 2011, os canais a cabo passaram a ter a obrigação de transmitir conteúdo nacional em suas programações.


Reprodução
Empresa criada no ano passado já atende grandes canais de TV

Hoje, ao menos três horas e meia de conteúdo audiovisual brasileiro têm de ser veiculado semanalmente durante o horário nobre da TV fechada. Metade desse conteúdo precisa ter sido feito por produtoras independentes. A regra vale para os canais qualificados, aqueles que exibem, predominantemente, filmes, séries, animações e documentários.

Nos últimos dois anos, mais de duzentas novas empresas foram registradas na Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPITV). Mauro Garcia, presidente da entidade, acredita que a nova lei deu "grande impulso para o crescimento do setor" e que a consolidação de fundos de investimentos, editais e linhas automáticas têm sido fundamentais para basear essa evolução.

Segundo a Ancine, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) é a principal ação de fomento desse tipo no País. Em dezembro do ano passado, foi anunciado que R$ 400 milhões serão destinados ao FSA em 2014, o que equivale à soma de tudo que havia sido investido no programa desde que ele começou a funcionar, em 2008.

De acordo com Mauro Garcia, o perfil dos assinantes mais recentes da TV por assinatura é outro aspecto importante para entender o aquecimento do mercado audiovisual brasileiro. Grande parte dos novos telespectadores tem "hábitos de consumo de TV aberta", o que faz com que canais fechados queiram transmitir conteúdo mais parecido com o que é visto nos canais brasileiros tradicionais, ou seja, mais trabalho para as produtoras nacionais.

Em janeiro de 2013, o jornalista Tiago Mello e dois amigos criaram a Boutique Filmes. Pouco mais de um ano depois, a empresa já produz para canais como Discovery Channel, Cartoon Network, Gloob e Fox. O empreendedor acredita que existe demanda considerável no setor, mas ressalta que é necessário bastante planejamento para se dar bem em uma "cadeia que ainda está se estruturando".

A importância de ter um projeto bem elaborado também foi algo destacado por Mauro Garcia. O presidente da ABPITV vê problemas de gestão e prestação de contas como a dificuldade principal dos novos empreendedores. Ele acredita que há necessidade de profissionais com boa capacitação administrativa para que esse "momento muito rico" do audiovisual possa ser bem aproveitado.

sábado, 10 de maio de 2014

Wil Wheaton e TableTop, a websérie que arrecadou US$ 1 milhão

Clarice Cardoso - O Estado de S. Paulo

Nerds vão se lembrar de Wil Wheaton como o arqui-inimigo/amigo de Sheldon em The Big Bang Theory. Nerds de verdade vão se lembrar dele como Wesley Crusher em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (minha versão favorita de Star Trek, se é que esse comentário cabe).

Depois de voltar à fama com as participações de The Big Bang Theory, Wil está à frente de um projeto na internet ainda mais nerd do que o televisivo e que só tem lhe rendido bons resultados: a sérieTableTop.

A premissa é um deleite para os mais geeks dos geeks: Wil convida celebridades para jogar seus jogos de tabuleiro favoritos. E entram na lista títulos ótimos como Ticket to Ride, Carcassonne, Tsuro ou Small World (sim, dou dessas que jogam tabuleiro, se é que esse comentário cabe).

A websérie venceu prêmios específicos do mundo nerd e, segundo as empresas que fabricam os jogos, impulsionou as vendas no que chamam de “efeito Wheaton”: no caso de Tsuro, os estoques em todos os Estados Unidos simplesmente evaporaram.

Um programa sobre jogos de tabuleiro dificilmente teria espaço na grade de uma emissora, pois fala a um público específico demais. Mas esse mesmo público é capaz de feitos incríveis quando se une pela internet.

É exatamente o que está acontecendo agora, quando a produtora lançou uma iniciativa de crowdfunding para arrecadar dinheiros para a terceira temporada. Pois os fãs se mobilizaram de tal forma que superaram o objetivo inicial e não só garantiram mais uma leva de episódios como conseguiram dinheiro suficiente para um spin-off, uma outra websérie só sobre RPG. Quanto exatamente eles arrecadaram? US$ 1 milhão!

O caso de TableTop é um exemplo importante para algo de que sempre falam showrunners e roteiristas com quem converso vez por outra para reportagens do Caderno 2: a internet é um celeiro importante para fazer séries profundamente autorais e atingir em cheio o público alvo. Sem as restrições de horários e emissoras, eles garantem, é mais fácil falar direto com as pessoas por quem se quer ser ouvido.

É por isso que todos os olhares estão voltados para as webséries: coisas boam prometem sair daí muito em breve…