quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Música, Cinema e Religião - as principais práticas culturais do brasileiro

Estudo realizado durante o biênio 2013-2014, o Panorama Setorial da Cultura Brasileira, traz o cenário do consumo de cultura no Brasil

por Cmais+


A indústria criativa está entre os mais dinâmicos setores do comércio mundial, segundo relatório lançado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD). Sua atividade econômica, a chamada 'Economia Criativa', é considerada eixo estratégico de desenvolvimento para diversos países, entre eles o Brasil, que hoje conta com a Secretaria da Economia Criativa, ligada ao Ministério da Cultura. Os agentes produtivos dessa cadaeia, no entanto, muitas vezes estão tão imersos na prática que acabam por criar sem conhecer seu público, levando a um círculo vicioso de produção segmentada e descolada da realidade, ou ainda, restrita a alguns nichos. Tendo em vista o fomento ao desenvolvimento desse setor produtivo, a partir de informações e dados sólidos que possam apontar caminhos, tendências e realidades mais consistentes para os produtores culturais, as pesquisadoras Giselle Jordão e Renata Allucci, com o apoio do Ministério da Cultura e da Vale, produziram a segunda edição do Panorama Setorial da Cultura Brasileira, voltado para o estudo dos hábitos do consumidor de cultura no Brasil.

Na pesquisa atual chama a atenção o fato de que, pelos dados interpretados e de forma geral, o consumo de atividades culturais ainda é realidade distante da maior parte dos brasileiros. Por exemplo, quando perguntados sobre as práticas culturais realizadas fora de casa no último um ano, menos da metade da amostra respondeu ter realizado alguma atividade fora de casa, sendo que apenas 5% responderam ter frequentado bibliotecas, 6% visitado cidades ou igrejas históricas e apenas 9% foram ao teatro (Veja tabela abaixo). Já entre as atividades culturais mais citadas, a campeã é frequentar alguma religião, resposta de 42% dos entrevistados, seguido de cinema, com 38%.

De certa forma, o estudo conclui que a prática religiosa realiza as necessidades de inclusão social e, pela representatividade na pesquisa, reforça diretamente sua concorrência com as práticas culturais. Essa constatação é interessante, mas revela apenas uma parte da realidade do consumo de cultura no país. Algo interessante de se observar no extenso e profundo estudo realizado pelas autoras Gisele Jordão e Renata Allucci, é a ênfase nas atividades culturais realizadas fora de casa, como idas ao cinema/teatro, restaurantes, festas religiosas e shows. O que chama a atenção é que a pesquisa sobre o consumo de cultura através de radiodifusão ou internet não estava em foco no estudo, apesar de essa ser uma realidade em um país que, por conta da baixa renda da população e da distância dos grandes centros urbanos, tem nesses meios um importante canal de acesso não só à informação mas ao entretenimento cultural. Das atividades praticadas, 'Ouvir música' é a mais apreciada (36% no Brasil), seguida 'Ir ao Cinema' (35%), 'Assistir à TV' (31%), 'Ouvir rádio' (26%) e 'Acessar a internet' (22%). Todas as atividades realizadas fora de casa vem depois, lideradas por 'Ir a Shows de música popular' (19%).

Também relevante nos dados da pesquisa é a constatação da forte e decisiva influência familiar nos praticantes de cultura, sendo o inverso também verdadeiro. Ou seja, quanto mais incentivo ou exemplo familiar se tem, infinitamente maiores as chances de hábitos com a cultura. Atrelado à isso, os benefícios esperados de uma atividade cultural pelo consumidor refletem a característica de "sociabilidade" promovida por uma prática cultural, tendo como principais fatores 'Ser divertido' (21%) e 'Provocar fortes emoções' (20%) (ver tabela abaixo). O caráter social das práticas culturais pode explicar o enfoque da pesquisa em atividades realizadas fora de casa e, possivelmente, mais identificadas como "coletivas" em portanto, mais "divertidas" pelos entrevistados.

Ao mesmo tempo, o estudo reforça que a cultura não é associada à diversão ou à informação, sendo ainda muito associada à erudição para a maioria dos entrevistados. Isso reflete uma realidade de constante distinção, infundada, entre a "alta" e a "baixa" cultura no Brasil, e que não nos permite avançar na produção cultural em vários aspectos, dado que ainda debatemos o que é ou não valor cultural em dada prática ou produto. Certamente, o Panorama trará luz para essa discussão, não só com novos e importantes números relacionados ao consumo de cultura no Brasil mas também com as contribuições de nomes de peso como Bernhard Lahire, Ana Rosas Mantecón e John Sinclair, entre outros, cujos Ensaios constituem quase metade da íntegra do estudo, disponível através do link-http://www.panoramadacultura.com.br

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

São Paulo já contamina o Aquífero Guarani

Estudos revelam: além de descuidar das represas, Estado permite exploração predatória e contaminação das reservas hídricas do subsolo

Por Júlio Ottoboni*, no Envolverde/IPS


São Paulo e parte dos Estados do Sul e Sudeste do país podem entrar tanto num ciclo de desertificação como de extermínio de suas reservas hídricas existentes no subsolo. A influência das queimadas e do desmatamento amazônico no ciclo das chuvas nas porções mais ao sul do país alarma tanto os cientistas tanto quanto os níveis de contaminação das águas potáveis existentes.

Com o volume de águas de superfície em diminuição considerável, as reservas subterrâneas estão em boa parte comprometidas. Seja por contaminação por esgoto, pesticidas ou mesmo pela falta de potabilidade. Há estudos sobre o uso a exaustão desses recursos em regiões onde o aquífero tem uma distribuição demasiadamente irregular. Desde 1998, pesquisadores da USP e outras entidades alertam para a exploração demasiada e sem critérios das águas subterrâneas, principalmente na agricultura.

No trecho paulista, o Aquífero Guarani é explorado por mais de mil poços e isso ocorre numa faixa no sentido sudoeste-nordeste. Já a área de recarga ocupa cerca de 17.000 Km², onde se encontram a maior parte dos poços e grande parte dos problemas de contaminação.

Há treze anos um grupo de cientistas do Centro de Pesquisas de Água Subterrânea (Cepas) do Instituto de Geociências da USP pesquisa a presença de nitrato nas águas subterrâneas. Os estudos mostram uma crescente contaminação por esgoto urbano em diversas cidades paulistas. Esse elemento químico surge em processos de decomposição bacteriológica de matéria orgânica presente nos dejetos.

“Em locais onde não há saneamento, a contaminação ocorre pelas fossas sépticas e negras, já nas áreas com redes de esgoto o problema são os vazamentos. As redes são antigas e não passam por manutenção periódica. A presença do nitrato em áreas urbanas com rede de esgoto não era esperada de forma tão intensa”, afirma o professor da USP Ricardo Hirata.

O nitrato é cancerígeno e pode desenvolver diversas doenças, principalmente síndromes em crianças. São Paulo tem uma grande dependência da água subterrânea. Segundo a pesquisa da USP, cerca de 75% das cidades paulistas têm o abastecimento público total ou parcial feito por águas de aquíferos.

“No Estado de São Paulo, quase 60% dos poços tubulares são ilegais, ou seja, não têm controle por parte do estado, com possibilidades de terem problemas de qualidade de suas águas. Isso significa que a população pode estar ingerindo água degradada por nitrato ou outros contaminantes e não saber”, alerta o professor da USP.

Além do problema da recarga, dificultado pela falta de chuvas, descontaminar a água com nitrato é algo caro e algumas situações inviável. Para agravar o quadro, há uma redução drástica da água de subsolo em diversas regiões. A supressão das matas ciliares que recobrem as bacias tem forte impacto sobre a qualidade da água, encarecendo em cerca de 100 vezes o seu tratamento.

O alerta para as péssimas condições das águas, tanto de superfície como de subsolo, foi feito também pelo pesquisador José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia (IIE). Segundo ele, em áreas com floresta contígua a cursos d’água que estão protegida, com algumas gotas de cloro por litro se tem água para consumo humano.

“Já em locais com vegetação degradada é preciso usar coagulantes, corretores de pH, flúor, oxidantes, desinfetantes, algicidas e substâncias para remover o gosto e o odor. Todo o serviço de filtragem prestado pela floresta precisa ser substituído por um sistema artificial e o custo passa de R$ 2 a R$ 3 a cada mil metros cúbicos para R$ 200 a R$ 300. Essa conta precisa ser relacionada com os custos do desmatamento”, afirmou.

Quando a cobertura vegetal na bacia hidrográfica é adequada existe uma quantidade maior de água, por processos naturais, essa retorna para a atmosfera e favorece a precipitação. O escoamento da água das chuvas é mais lento, favorecendo a recarga e minimiza a erosão. Os A vegetação funciona como um filtro natural e ajuda a infiltrar a água no solo.

“Em solos desnudos, o processo de drenagem da água da chuva ocorre de forma muito mais rápida e há uma perda considerável da superfície do solo, que tem como destino os corpos d’água. Essa matéria orgânica em suspensão altera completamente as características químicas da água, tanto a de superfície como a subterrânea”, explicou Tundisi.

* Júlio Ottoboni é jornalista diplomado e pós-graduado em jornalismo científico.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Mergulhe no universo dos gibis e entenda o passo a passo da sua criação

Produção Maurício de Sousa - Mais Cultura

Por Cmais+
Confira um dia na produção do Maurício de Sousa! De segunda a sexta, o Mais Cultura traz entrevistas, matérias especiais e agenda na tela da TV Cultura. Arte, música, gastronomia e muito mais! Veja mais em nosso site: http://cmais.com.br/maiscultura Inscreva-se em nosso canal do Youtube: http://www.youtube.com/maisculturaoficial

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Entre intrigados e encantados, ato Manchas Urbanas percorre as ruas da Capital
Projeto que concorre ao prêmio Braskem Em Cena levou coreografia para o centro histórico

por Demétrio Rocha Pereira
Espetáculo tem como ponto de partida as questões ambientaisFoto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Com elenco de cinco, a intervenção urbana vai de passo curto pelo centro de Porto Alegre, atrás os fotógrafos e repórteres como um rabo de cometa, e nessa pequena romaria o espetáculo Manchas Urbanas completa a volta, do Mercado Público à Santa Casa à Andradas e de novo o Mercado.

É um punhado de paradas para que se façam as coreografias individuais do grupo dirigido por Eduardo Severino, mas, no vaivém de procurá-los, só alcanço a performance de Luciana Paludo, na Avenida dos Andradas, calçadão entre a livraria Saraiva e o Edifício Galeria Brasiliana.

Um guri de boné, casquinha de sorvete à mão, cutuca o colega com o cotovelo e convida:

— Vão filmar alguma coisa ali.
Fernando Gomes / Agência RBS

Luciana abre os braços e percorre um círculo como uma ave marcando território. No centro desse terreno, envelopam-na, dos seios à cintura, em uma toalha amarela. Uma caixinha de som começa a batucar uma percussão oriental.

Ao mesmo tempo tremulantes e exatos, os gestos da artista como que simulam o manejo difícil de um objeto invisível que ora cresce, ora se apequena. No pique da rotina, houve porto-alegrense que achasse intolerável:

— Os caras tomaram ácido! — alguém resmunga e, ligeiro, some.
Fernando Gomes / Agência RBS

A intervenção martela o canto, inabalada: “Pele-comprime / cidade-comprime / pele-cidade / felicidade”. No fim, o povo que ali se apertou até sai de cara boa:

— Tudo o que a gente vê de novidade é interessante. Aqui tem muito show. Esses dias eu saí daqui de baixo e, até lá em cima, foram cinco shows. Bolivianos, uruguaios, argentinos, um brasileiro... Às vezes o cara está pensando uma coisa, para um pouquinho e se distrai, é bacana — diz o pintor Marcos Malta, 48 anos.

— Não moro aqui. Sou de Cacequi, mas venho seguido. Parei na rua porque achei bonito o ensaio — conversa a aposentada Evani da Fontoura Garcia.
Fernando Gomes / Agência RBS

O grupo segue até quase a Praça da Alfândega e, ao dar com um comício do Psol, quebra para a direita, na General Câmara. Antes de abandonarem seus papéis, os artistas ainda passam uns segundos contemplando o Paço Municipal.

— É um pouco abstrato. Em relação ao que rola comumente aqui no centro, tem pouco significado, dificulta a interpretação, causa um estranhamento — avalia Luciana Paludo, no encerrar do ato.

O bailarino Eduardo Severino relata um pouco do que ouviu do público:

— Hoje escutei coisas bárbaras. Uma senhora que estava entregando panfletos disse: "Isso é fisioterapia? Muito lindo!"

O Manchas Urbanas concorre ao prêmio Braskem Em Cena e integra o volume 5 da coleção Gaúchos Em Cena. Na quinta-feira, o grupo parte às 17h30min da esquina da Paulo Gama com a Osvaldo Aranha.

* Zero Hora

domingo, 14 de setembro de 2014

Saiba como combinar frutas e vegetais e deixar os sucos naturais mais nutritivos Variedade de sabores e texturas ajuda a compor bebidas aliadas da saúde

por Camila Nunes
Foto: stock.xchng / Divulgação

Os sucos naturais são grandes aliados da dieta saudável. As frutas são ricas em vitaminas, minerais e fibras e oferecem uma grande diversidade de sabores e texturas, ajudando a compor bebidas que agradem a diferentes paladares. As nutricionistas Lenice Zarth Carvalho e Ana Carolina Bragança dão dicas de como combinar frutas e vegetais para deixar os sucos ainda mais nutritivos e ajudar no bom funcionamento do organismo. Confira:

Flora intestinal: água de coco, mamão e frutas vermelhas
Auxilia na recuperação da flora intestinal por causa da ação da glutamina e do potássio presentes na água de coco, do betacaroteno do mamão e das propriedades das frutas vermelhas. É um suco indicado especialmente para quem toma medicamentos como laxantes, antibióticos e anti-inflamatórios, ou ainda para quem tem disbiose intestinal (predomínio de fungos e bactérias que causam doenças). O suco deve ser preparado com frutas maduras e não deve ser adoçado. Farelo de aveia pode ser acrescentado.

Saiba como escolher o suco pronto mais saudável

Ação detox: maçã, abacaxi, couve e salsa
Ajuda a limpar as toxinas do organismo – principalmente do fígado – devido as enzimas digestivas e as vitaminas do abacaxi, aliadas ao enxofre, ao magnésio e ao ácido fólico da couve. A ação diurética da salsa completa o processo.

Combate ao envelhecimento: limão, acerola e cenoura
A vitamina C presente no limão e na acerola, junto ao betacaroteno da cenoura, auxilia no combate ao envelhecimento das células, impedindo a ação de radicais livres sobre o metabolismo celular.

Suco de uva pode ser aliado para perder a barriga

Antes do treino: beterraba, 200ml de suco de laranja, três morangos e uma colher (chá) de guaraná em pó
A beterraba, que é energética, aumenta o desempenho da atividade física se for consumida uma hora antes do treino. Também eleva a capacidade de ganho de massa magra, uma vez que auxilia na recuperação muscular. O guaraná tem efeito estimulante, recomendado para o pré-treino.
Diurético drenante: 200ml de água de coco, meia pera, uma fatia de melão, meio talo de salsão, uma colher (café) de gengibre em póTem capacidade diurética natural, ajudando a diminuir o inchaço corporal. Contém baixas calorias, mantém a hidratação do corpo e promove o bom funcionamento intestinal. Além de ajudar a melhorar as defesas do organismo.
Sintomas da menopausa: 200ml de suco de laranja, duas fatias de abacaxi, cinco folhas de hortelã e uma colher de sopa de maca peruana em pó
Além de refrescante, esse suco contém uma combinação de vitaminas do complexo B, zinco e vitamina E, que auxiliam na formação de hormônios, aliviando as ondas de calor.

sábado, 13 de setembro de 2014

Microsoft compra produtora do jogo "Minecraft" por US$ 2,5 bilhões

Desenvolvido pela sueca Mojang, game é um dos mais vendidos de todos os tempos
Foto: Minecraft / Reprodução

Depois de rumores espalhados durante a semana passada, o negócio foi confirmado. A Mojang, produtora sueca do jogo Minecraft, anunciou nesta segunda-feira que foi comprada pela Microsoft por US$ 2,5 bilhões.

O fundador da Mojang, Markus "Notch" Persson, irá deixar a empresa após a aquisição. A decisão de Persson não surpreende, pois ele já falou publicamente diversas vezes contra grandes corporações tecnológicas, o que inclui a Microsoft. Em nota, ele contou que irá se dedicar a pequenos jogos experimentais.

– Se eu, acidentalmente, fizer alguma coisa que atraia atenção, irei abandonar imediatamente – diz Persson no comunicado.

Depois de 30 anos, japonês descobre truque no jogo Super Mario BrosJovens do mundo todo se reúnem para assistir espetáculo de videogame
Além de Persson, outros dois fundadores da Mojang, Jakob Porsér e Carl Manneh, também saíram da empresa.

A compra da Mojang foi a maior aquisição da Microsoft desde que Satya Nadella assumiu a presidência da companhia, em fevereiro deste ano.

Minecraft


Com mais de 50 milhões de cópias comercializadas, Minecraft é um dos jogos mais vendidos de todos os tempos. Lançado oficialmente em 2011, o game permite criar objetos e monumentos utilizando blocos, pedras, madeiras ou minérios. Não há objetivos no jogo, por isso, não existe uma forma de vencer, mas há ações que podem fazer o jogador morrer. A liberdade é grande, tanto que alguns jogadores mais dedicados recriam de tudo – desde cena clássica de Star Wars (assista abaixo) até, simplesmente, o planeta Terra.


Há versões para diferentes plataformas – como PC, iOS, Android, Xbox e Playstation –, que continuarão a ter suporte, conforme garantiu a Microsoft.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Conheça os 21 dinossauros descobertos no Brasil

Edição especial do Planeta ciência apresenta um por um a origem e as características dos fósseis encontrados no país
por Ticiano Osório / ZH

Foto: Editoria de arte

O Brasil tem 21 espécies de dinossauros confirmadas e batizadas. Há casos tidos como duvidosos (o Antarctosaurus brasiliensis: não se sabe dizer se era diferente ou igual a outras espécies) ou indeterminados, e já houve um "rebaixamento" – o Sacisaurus agudoensis (assim chamado porque, entre os ossos encontrados em rochas na cidade gaúcha de Agudo, havia 19 fêmures direitos, mas nenhum esquerdo), anunciado em 2006, foi reclassificado como pertencente a um grupo de répteis distinto.

As duas dezenas parecem poucas comparando com as mais de cem da Argentina, país com extensão territorial três vezes menor que, dias atrás, deu oficialmente ao mundo o Dreadnoughtus schrani, gigante de 26 metros de comprimento e 60 toneladas, com 70% dos ossos descobertos na Patagônia. Há uma série de motivos, como aponta o professor e paleontólogo paulista Luiz Eduardo Anelli no livro O Guia Completo dos Dinossauros do Brasil (Editora Peirópolis, 2010). Vão desde a formação geológica (por exemplo: aqui, são raras as rochas do Jurássico, período do qual são conhecidas sete espécies na Argentina) ao clima que, lá, favorece a preservação dos fósseis. O tempo de pesquisa também influi. Nossos vizinhos descreveram seu primeiro dino em 1893, 77 anos antes da primeira espécie brasileira.

Veja como um dinossauro vira fóssil e como um fóssil vira dinossauro
Paleoarte: a arte de ressuscitar dinossauros
Curador da exposição Dinos na Oca (2006), que atraiu meio milhão de pessoas ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo, Anelli, 50 anos, está finalizando quatro livros sobre a pré-história brasileira – dois para adultos, dois voltados ao público infantil. Professor da USP, ele será nosso guia nesta viagem no tempo, ilustrada pelo paleontógrafo Felipe Alves Elias.



OS DINOS BRASILEIROS


As espécies brasileiras foram ordenadas pelo tamanho estimado, da menor à maior. Os esqueletos mostram quais ossos foram encontrados (na cor branca):

Fizemos quatro perguntas para Luiz Eduardo Anelli, paleontólogo e autor do livro O Guia Completo dos Dinossauros do Brasil:

Por que os dinossauros despertam tanto fascínio?
Anelli - Dinossauros nos transportam, em uma longa viagem pelo tempo, a um mundo totalmente diferente do que conhecemos. Foram animais exuberantes, alguns enormes, de anatomia esquisita, com armaduras, chifres, longas caudas e pescoços harmoniosamente projetados. O fato de não conhecermos completamente sua aparência e seus hábitos os revestem com mistérios e enigmas. E seus esqueletos estão escondidos nas rochas, o que torna o trabalho do paleontólogo fascinante, comumente realizado em regiões desérticas, selvagens e distantes, envolvendo perigos e desafios, além de jipes Land Rover estacionados em magníficos acampamentos empoeirados.

Por que pesquisar dinossauros?
Anelli - Além de todas as razões descritas acima, pesquisamos os dinossauros porque queremos estudar tudo. Não existe algo neste mundo, ou mesmo no universo visível, que não esteja sendo observado e pesquisado exatamente neste momento. Moscas, plantas, rochas, bactérias, medusas, petróleo, CO2, cerâmicas, o cérebro de macacos, DNA, Nietzsche, adolescentes, supernovas, a ausência de gravidade, tudo é hoje alvo de algum cientista. O Homo sapiens é curioso e gosta de estudar. Queremos saber de onde viemos, como tudo funciona, como resolver nossos grandes e pequenos problemas, e o que o futuro nos tem reservado.
Com esqueletos de dinossauros não é diferente. O conhecimento deles teve grande impulso pouco antes do início do século 20, quando uma verdadeira corrida por esqueletos aconteceu nos Estados Unidos e Canadá, tempo quando foram encontrados os primeiros gigantes e o primeiro esqueleto de umTyrannosaurus rex. Aqueles monstros terrestres, pela primeira vez, foram expostos em museus, reproduzidos em ilustrações e esculturas, e adentravam o imaginário das pessoas. A vida ainda estava em processo de descoberta. Não temos hoje notícias com aquela magnitude. Daquele tempo em diante, seus esqueletos começaram a pipocar pelo mundo, em rochas de todos os períodos da Era Mesozoica, em grande diversidade de tamanhos, anatomias e modos de vida. A partir da década de 1970, os paleontólogos perceberam que os dinossauros eram muito mais que répteis grandalhões desajeitados. A possibilidade de que tinham sangue quente, metabolismo elevado, que eram aparentados as aves, coloridos, e o fato de que a cada ano dezenas de novas espécies eram descobertas pelo mundo — incluindo a Antártica — capturou o interesse dos grandes cientistas nas maiores e mais importantes universidades do mundo. Descobrir e pesquisar novos dinossauros dá um tipo de status, deixa o paleontólogo um pouco mais "especial" que os outros — não é o meu caso, eu apenas os estudo e escrevo sobre eles. Além disso, os dinossauros já ensinaram muito aos cientistas sobre a evolução biológica e geológica, sobre a paleontologia, com um tipo de conhecimento que alcança e pode ser facilmente assimilado por pessoas leigas ligadas a outras áreas do conhecimento. O retorno cultural que nos dão é muito grande, muito valioso. Vale a pena gastar tempo e dinheiro para estudá-los. Eles nos trazem do passado notícias à respeito da história da Terra e da vida, sobre as revoluções geológicas e transformações biológicas que mudaram o mundo deixando-o como o conhecemos hoje. E mais, algo muito importante neste mundo moderno, é o fato de que dinossauros são facilmente transformados em produtos. Bonecos, livros pop-up e brinquedos, são vendidos aos milhões pelo mundo. Cada notícia sobre a descoberta de um novo dinossauro aquece o grande mercado mundial de produtos infantis. Fazer o quê? É o capitalismo.

O que o Brasil tem a oferecer ao mundo da paleontologia?
Anelli - No Brasil, e isso quer dizer o Rio Grande do Sul, aparecem na superfície rochas de um período chave na história dos dinossauros, o Triássico, quando esses répteis surgiram. Nessas rochas estão os mais antigos esqueletos, com idades entre 220 e 230 milhões de anos. O intervalo que os separa do último T. rex, cerca de 162 milhões de anos, é quase três vezes maior do que o que nos afasta hoje do grande predador. Os gaúchos Staurikosaurus, Pampadromeus, Saturnalia, Unaysaurus e Guaibasaurus representam a pré-história dos próprios dinossauros! Eles nos mostram que os primeiros dinos eram pequenos, tinham hábitos alimentares variados (carnívoros, herbívoros, onívoros, carniceiros) e modos de vida distintos (uns viviam perto da água, outros em regiões arborizadas, por exemplo). Embora tenham ficado à sombra de outros grandes répteis durante cerca de 30 milhões de anos, assim que tiveram oportunidade (com a extinção em massa ocorrida cerca de 200 milhões de anos atrás), a grande variedade de estilos de vida possibilitou que rapidamente se apoderassem dos ecossistemas, tornando-se os dominadores dos continentes por quase 150 milhões de anos. A maior contribuição dos nossos dinos à paleontologia mundial é essa, eles ajudam os paleontólogos a montar o quebra-cabeça da evolução. E todos sabem: começar a unir as primeiras peças é sempre o mais difícil.

O que a gente ainda pode descobrir no país?
Anelli - Novos dinossauros do Triássico serão encontrados no RS, outros serão descobertos em rochas do Cretáceo de São Paulo, Minas Gerais, Maranhão e Ceará. Os paleontólogos têm encontrado esqueletos de crocodilos terrestres e pterossauros, fósseis cobiçados por cientistas do mundo todo. Mas acredito que a maior descoberta será feita por todos os brasileiros: a da nossa própria pré-história. De modo geral, não sabemos quais foram os dinossauros e os outros animais pré-históricos que pisaram nestas terras, nem como eram os mares, os lagos glaciais, os desertos, as florestas e pantanais que se sucederam por aqui centenas de milhões de anos atrás. Nosso conhecimento sempre foi nutrido por paisagens e dinossauros de outras regiões do mundo. A pré-história brasileira ainda não foi popularizada.